quinta-feira, 27 de outubro de 2011

OS ANIMAIS



O POMBO
(8 de setembro de 1995)

Meu contato com os pombos é mínimo. Pensando bem, acho que jamais houve contato algum. De vez em quando vejo um ou outro perto de minha casa; frequentemente, nos filmes, há pessoas alimentando pombos em alguma praça; e é comum vê-los também em algumas solenidades, ocasiões em que saem voando em grande quantidade, formando um bonito espetáculo. A não ser isso, não me lembro de algum momento em que um pombo tenha estado comigo.

Eu estava calçando apressadamente as meias, estava distraído e atrasado. Assustei-me então com um barulho estranho, vindo da janela do quarto, que estava aberta. O coração, imediatamente disparado, devido ao grande susto, sossegou, quando percebi um pombo pousado na janela. Mas que estranho me pareceu aquela cena. Um pombo?! O que um pombo estaria fazendo na janela de meu quarto? E se ele entrasse, será que acharia facilmente a saída ou voaria desnorteadamente pela casa? Afugentei o animal e continuei me preparando para sair. Quando calçava o segundo sapato, veio novamente o pombo, novamente me assustando, novamente pousando na janela. Fiquei intrigado. Olhei por todo o quarto, procurando por algo que pudesse estar chamando a atenção dele. Não achei nada que julgasse digno de interesse de um pombo, mas lá estava ele, e parecia disposto a não sair. Outra vez afugentei a ave. Ele bateu asas; eu voltei a me arrumar. Ele voltaria? Foi então que...

Foi então que decidi fechar a janela. Já era mesmo hora de sair, e saí pensando no pombo. Ele voltaria? Ele voltará?

OS ANFÍBIOS
(12 de janeiro de 1996)

Ao chegar em casa após a meia-noite, vindo do trabalho, eu guardava a bicicleta num cômodo separado da casa, uma espécie de garagem para as bicicletas. Em noites de garoa eu chegava, acendia a luz e olhava com acuidade para o chão, evitando assim pisar algum sapo, já que eles são comuns em noites chuvosas. Em noites assim, sempre era esse o procedimento.

Um belo dia, quando fui acender a luz, tudo escuro. Era uma vez claridade. Assim sendo, habituei-me a chegar e fingir não haver em mim o receio de pisar um sapo. Acostumei-me a agir desse modo. Quando o hábito já estava arraigado, instalaram nova lâmpada no cômodo, precisamente num dia em que caía uma garoa. Cheguei, acendi a luz e vasculhei o chão. Mesmo não deparando nenhum sapo ou afins, fiquei com receio de entrar na garagem. Anteriormente, no escuro, com ou sem chuva, a coragem era maior.
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Há em minha casa uma garagem onde guardamos as bicicletas. Sempre que chego após a meia-noite, vindo do serviço, é lá que guardo minha bicicleta. O ritual é esse, exceto em noite de garoa, pois quando vem a chuva tomo cuidado para não pisar algum sapo, anfíbios tão comuns em noites chuvosas. Se chovesse, mesmo com a luz da garagem acesa, eu não desgrudava o olhar do chão, com o intuito de não me envolver em um confronto direto com algum sapo.

Mas num belo dia, após chegar em casa, nada de luz no recinto onde coloco a bicicleta. Como não chovia, não me preocupei. E quando chovesse? Passou o tempo e nada de luz. Um dia, tudo de chuva. Não havendo mesmo a possibilidade de deixar do lado de fora a bicicleta, guardei-a rápido. Com o passar do tempo fui me acostumando com a ausência de luz, e mesmo em noites de chuva, eu agia como quem não estava temeroso, e de supetão guardava a bicicleta. Tanto me acostumei com tal procedimento que num certo dia cheguei e apertei o interruptor, pois uma lâmpada havia sido instalada. Precisamente naquele dia, chovia, e, mesmo com o ambiente iluminado, vacilei para guardar a bicicleta.*
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* Eu havia feito um rascunho desta crônica. Quando ia começar a versão definitiva, não o achei. Rabisquei então um outro rascunho. Assim que o terminei, eu me deparei com aquela primeira versão do texto. Como eu tinha então dois rascunhos, simplesmente os publiquei.

UM DIA DE CÃO
(9 de agosto de 1996)

Disse Jerry Lee Lewis: “Eu costumava ter de beber uma dose de tequila para ficar sóbrio”. E foi com essa sobriedade que eu me dirigia para casa na madrugada do dia 29 de julho, pois eu e um amigo havíamos tomado três cervejas. Em meu caso, uma cerveja e meia é o bastante para que eu fique sóbrio.

Desci a Silva Guerra e segui pela Duque de Caxias. Cheguei em casa rapidamente, e antes mesmo de abrir o portão chequei a hora. Três da madrugada, e pensei em ligar a televisão assim que entrasse.

Apanhei minhas chaves, e quando estava prestes a destrancar o portão, vi um cachorro que vinha em minha direção. Se fosse uma pessoa, eu diria se tratar de um ser humano de estatura média, e para que vocês tenham uma ideia do tamanho do animal, afirmo que ele era um cão de tamanho médio. Como ele vinha sem rosnar, calmamente e abanando a cauda, não temi sua aproximação. Quando estava próximo a mim, mostrou-se ressabiado, como que pensando com seus botões se aproximar-se-ia mais ou não. Ainda balançava a cauda. Curvei-me e tentei uma aproximação, estalando os dedos e o chamando com tom e palavras típicos. Deixando de lado sua desconfiança, ele se permitiu ser tocado por mim e mostrou contentamento. Afaguei por alguns instantes seu pelo marrom e disse-lhe que iria pra dentro. Destranquei o portão, ele demonstrou interesse em entrar. Por um momento me senti tentado a deixá-lo vir para dentro, mas pensei que ele poderia ter dono, ou mesmo que não poderia ser aceito pelo restante da família. Deixei-o de fora, guardei a bicicleta num cômodo separado da casa. Quando destrancaria a porta, vi que o cachorro permanecia em frente à minha casa, observando-me de forma contente. Como o portão de casa mais se parece com uma grade, era fácil vê-lo. Quanto mais eu olhava, mais eu tinha vontade de passá-lo para dentro.

Abri a porta, larguei-a aberta e corri o mais silenciosamente que pude até a cozinha, para apanhar um pão para o cachorro. Corri de volta. Ao sair para revê-lo, ele não estava mais onde esteve. Fui até o portão e, sem destrancá-lo, chamei pelo cão, elevando um pouco a voz.

UMA PERSEGUIÇÃO ANIMAL
(30 de agosto de 1996)

É difícil achar alguém que nunca tenha sofrido uma perseguição canina. Estejamos nós de bicicleta, moto ou a pé, eles vêm em cima como se fossem capazes de nos engolir. Alguns deles, mais ousados, perseguem automóveis. Alguns se dão mal. Um amigo, certa vez, movido pela mais genuína raiva, rachou o cérebro de um cachorro com um tiro. Chegou a ser preso pelo ato, mas sentiu-se aliviado por ter dizimado o cão.

Sábado passado (24/8), Mário Júlio, locutor de uma emissora de rádio local, contou-me a história ocorrida em plena escuridão da madrugada, ocasião em que ele voltava para casa tranquilamente. Não sei quando se deu o fato, mas ele é digno de ser contado.

Mário impunha um ritmo calmo a seus passos. Em três ou quatro minutos estaria em casa. Quando tudo parecia estar mesmo sem alguma possível reviravolta, ele ouviu um latido grave, que só poderia ser emitido por um cachorro grande. Virou-se para trás e viu a materialização de seus pensamentos. Era, sim, um animal imenso, vindo da escuridão. Sem pestanejar, já que não havia como pensar duas vezes, Mário iniciou sua corrida noite adentro, enquanto ouvia o cão ladrar como se ladrão perseguisse.

É uma pena não podermos ensinar aos cães a verdade de que só os invasores de lares devem ser submetidos a apuros como esses em que se encontrava o Mário, correndo o mais que podia no caminho que bem conhecia. Quanto mais corria, mais alto ouvia os latidos do voraz cachorro. Contudo, Mário não se entregava, e com o coração disparado, buscava uma energia que ele nem sabia se tinha.

Situação delicada, a dele. Se fosse um cãozinho qualquer, era só correr atrás dele e ver o animal voltar para casa mais veloz do que ao sair. Bem sabemos que ao sermos perseguidos por uma ferazinha exaltada, é fácil e prazeroso fazê-la recuar assustada. É uma pena não tomarmos a mesma atitude ao sermos perseguidos por um cachorrão. Nessas questões, tamanho é documento, e sem conseguir fazer com que suas pernas disparassem mais do que seu coração, Mário ficou pasmado ao ver passar por si o cão que o perseguia. Passou à frente dele como se ele nem existisse.
Ao chegar em casa, ainda com o coração batendo descompassadamente, é que ele pôde desfrutar o alívio de estar o cachorro perseguindo um também assustado gato.

DA FAMÍLIA DOS CULICÍDEOS
(8 de outubro de 1996)

Temos ainda quase primavera inteira pela frente e o calor já está colocando as manguinhas de fora. Os bares já estão mais movimentados à noite, as pessoas já estão se queixando do calor, as roupas estão sumindo. Chegou a primavera, já já vem o Horário de Verão e, pouco depois, o próprio. “O tempo passa e a gente nem vê”.

Nem só de política vive o homem, e mesmo nessa época em que muito se fala sobre política, a vinda do calor fez com que um espaço para um outro assunto fosse aberto nas rodinhas, nos telefonemas e nos debates: as muriçocas são agora o centro das atenções. No silêncio da madrugada, o ruído que elas produzem se agiganta. Ele começa bem de mansinho, como que vindo de longe. Pouco a pouco o zumbido parece aumentar sua intensidade, aguça-se a audição. Ou tenta-se espantá-lo ou aguarda-se o bote. Pior é quando o ataque vem no plural. Um ou mais de um lado, com uma ou mais do outro, as muriçocas conseguem incomodar a esquerda e a direita. São apolíticas, não se deixam envolver por candidatos nem eleitores.

Há pouco tempo, meu pai, em plena madrugada, não conseguindo dormir, devido à festa que elas promoviam, partiu para o tudo ou o nada. Levantou-se e banhou-se com um perfume de minha mãe. Funcionou como um ímã. Na noite seguinte, lambuzou-se com outra essência, verificando assim a repulsa dos bichos.

Nessa história toda, o que mais tenho vontade de saber é para onde elas vão. Se eu soubesse onde elas ficam durante o dia, seria interessante não deixá-las dormir, entoando meu ZZZZZZZZZ, exclusivamente pelo prazer da vingança. De intervalo em intervalo eu as tiraria de seus sonhos, se é que muriçocas dormem. Creio que sim, pois só assim conseguem percorrer a escuridão com tão eloquente vigor.

Mas não há de ser nada não. Apelarei para os repelentes. Vou deixá-las com água na boca. Confio na ciência. Ah! quão prazeroso será ouvir aquele ruído se aproximando e, pouco tempo depois, escutá-lo voar para longe, cabisbaixo, até que em meu quarto e em meu sono haja somente silêncio e escuridão.

UM GATO
(14 de novembro de 1996)

Sobre o gato, escreveu Artur da Távola: “O gato é um ser em outra dimensão, em diverso astral. No que tange à introspecção e à convivência com o mistério está alguns milênios adiante do homem”.

Há casos em que gato e homem parecem estar num mesmo nível, a ponto de haver uma interdependência. O gato e a família se entendem e conseguem criar um todo coeso. Há casas em que os gatos não são aceitos. Alguns donos de cães alegam que os gatos não se preocupam em retribuir a atenção que recebem.

Conheci um gato que era daqueles que sabiam de cor os recônditos do lar. Sabia até onde poderia ou não dormir. Era manso, e não achava ser problema ir logo se familiarizando com visitantes. Com o cachorro da casa ele se familiarizara, e, embora não falasse a mesma língua do papagaio, não era difícil vê-los (o gato e o papagaio) trocando figurinhas. Conhecendo por dentro e por fora seu meio, o gato pardo envelhecia sem reclamar, comendo do bom e dormindo do melhor.

Mas como não podia deixar de ser, até mesmo os gatos rechonchudos são vacinados, e quando chegou o dia em que o felino passaria mais uma vez por essa provação, não parecia estar nem ligando. Não se opôs em momento algum, e com a melhor das disposições, permitiu-se ser levado. Só o papagaio é que não foi.

O local em que os bichos seriam vacinados não ficava muito longe. No caminho, permaneceram em silêncio. Tiveram, sim, de ouvir o tempo todo aquelas tradicionais conversas do tipo “pode ficar tranquilo, não vai doer” e coisas similares, enquanto eram levados.
À medida que se aproximavam, perceberam a presença de seus semelhantes e ficaram atentos. Ao ouvir latidos, o cão respondeu. O gato só ouviu. Chegando ao local propriamente dito, ele se sentiu desconfortável com aquela cachorrada. Entre latidos e miados ele aguardava sua vez, quando um cão mais atrevido dirigiu-lhe seus furiosos latidos, mesmo não tendo ainda sido vacinado. O gato, sempre na dele, nada respondeu. Entretanto, estando agitado, libertou-se do jugo de sua dona e nunca mais voltou.

NICK
(4 de julho de 1997)

Quando ele chegou, era ainda muito pequeno. Nem conseguia se virar direito por conta própria. Chegou aborrecido, manhoso, medroso. Tive de ter muita compreensão e paciência para aceitar sua incompreensão e impaciência diante de minha presença. Levou mais ou menos um mês para que ele demonstrasse me considerar um membro da família que ele então passara a integrar.

Desde sua vinda ficou bem claro que meu irmão tornara-se seu melhor amigo. Ele o alimentava, matava sua sede, cuidava dele. Entre os dois ia se solidificando uma amizade profícua. Ao vê-los, eu frequentemente me lembrava de um trecho de Borges: “A amizade dos homens,/a devoção dos cães”. Embora me vendo praticamente o dia inteiro, ele se mantinha distante de mim, provavelmente estranhando meu jeito de caminhar. Fui o último da casa a que ele se afeiçoou. Quando isso ocorreu, pudemos apreciar juntos bons momentos, ocasiões memoráveis e engraçadas.

Seu corpo crescia rápido; sua habilidade ia, aos poucos, proporcionando-lhe realizar travessuras que deixavam furiosa minha mãe. Às vezes eles se desentendiam, mas logo voltavam a se entrosar. Quando nós, os integrantes da família, estávamos com ele, nos soltávamos, cada um a seu modo. O tom de voz era luxento, dengoso. Conversávamos com ele o tempo todo, mesmo recebendo em troca apenas olhares e gestos. Não havia diálogo; entretanto, havia reciprocidade. Ele nos entendia, confiava em nós.

É curioso. O tom de voz, o modo como tratamos os cães. Muitas vezes, agimos semelhantemente com as crianças. Os infantes e os cachorros deixam-nos à vontade para sermos bobões, meninões. Segundo Chaplin, “as crianças e os cachorros são os melhores atores em filmes”. Eles desconhecem o que é ser ridículo, o que traz à tona o ridículo e o carente que somos. Já vi carrancudos se derreterem com seus pimpolhos.

Nick foi trazido pelo meu pai, que não fechou o portão. Nick foi atropelado há algumas madrugadas. Meu irmão foi quem o encontrou morto, sangrando próximo ao meio-fio. Meu irmão conversa enquanto sonha, e já pude ouvi-lo brincar com o Nick.

PORCOS AO VENTO
(12 de janeiro de 1998)

Ventava muito. Madrugada, 18 de dezembro de 1997. O barulho que o vento produzia, se escrito, seria a onomatopeia do terror, do medo. Enquanto ventava, eu ficava escutando, imaginando uma cena de filme de terror embalada por um vento terrificante. De vez em quando ele dava um tempo, para depois ventar furioso e mandar embora qualquer esperança.

Falaram-me de uma matéria veiculada na televisão, sobre porcos. Segundo me contaram, os porcos são um dos animais mais inteligentes. Há quem os ache gananciosos, além de não suportarem sua sujeira. Mas é como escreveu Manoel de Barros: “Besouro no estrume está no palácio”...

A convivência entre homens e porcos é antiga. “Quanto ao porco, que tem o casco fendido mas não rumina, vós o considerareis impuro” (Dt 14, 18). No “Animal Farm”, segundo a tradução de Heitor Ferreira, lê-se: “As criaturas de fora olhavam de um porco para um homem, de um homem para um porco e de um porco para um homem outra vez; mas já se tornara impossível distinguir quem era homem, quem era porco”. Na “Odisseia”, os companheiros de Ulisses são transformados em porcos. Numa capa do Pink Floyd há um porco no céu. Na infância, “Os Três Porquinhos”.

Moro a duas quadras de um matadouro. Aquela história da inteligência dos porcos, quem ma contou foi o Manoel. Não o de Barros, mas o Almeida, artista logotípico e colaborador da imprensa local. A Deila, namorada dele, estava conosco e me perguntou se eu nunca ouvira o grunhido desesperado dos porcos, de madrugada, no matadouro. Eu disse que não, mesmo tendo o hábito de estar acordado até bem tarde. De acordo com o Manoel, talvez os grunhidos fossem emitidos com tamanha intensidade devido, precisamente, à inteligência dos porcos, como se eles soubessem que morreriam em instantes.

Não me esqueci dessa conversa e passei a prestar atenção. O Manoel estava certo. De tão assustados, eles parecem, de fato, saber o destino fatídico. Desde então, escuto-os. Amiúde eles têm implorado para serem poupados. Naquele dia 18, o vento, os porcos. Tudo era então desespero.

P.S.: Terminado o texto, saí e passei por um motorista de ônibus. Até hoje não sei se ele me ajudara ou se o trocador errara mesmo. O último me dissera para descer em Lagoa Formosa: meu dinheiro não daria a passagem até Patos de Minas. Já ia descendo e o motorista me disse para voltar. Ainda me arrependo de sempre ter achado que ele tinha cara de porco.

AUÊ
(11 de abril de 1998)

Os nomes que darei aos personagens a seguir não importam. O nome aqui será uma convenção. Os nomes de todos eles serão adereços. Não me pediram para serem poupados; mesmo assim, prefiro não me valer do nome que cada um carrega em sua carteira de identidade.

Era terça-feira, 17 de março. Entre 20h e 20h30. Quatro pessoas estavam na sala, acompanhado pela televisão o noticiário. Todos prestando atenção na telinha. A audiência só seria abalada quando Nara fez, primeiro, uma expressão assustada, para então comentar descontraidamente: “Olha só quem está ali”.

Dona Rita, no sofá, logo tratou de tirar os pés do chão e ficou toda encolhida; Sérgio, o único homem que estava em casa no momento – ou pelo menos o único em condições de travar luta naquela ocasião, pois o filho dele e de Nara tem apenas alguns meses, e estava dormindo –, estilingou para a varanda e de lá ficou acompanhando toda a agitação que tomara conta da sala desde o momento em que Nara havia anunciado a presença de um sapo.

Nem grande, nem pequeno; escondidinho atrás do sofá, no canto. Entrara sorrateiro, discreto, e assim permanecia. Havia encontrado um lugar, uma sala para estar. Lá estava, silencioso como os gatos que circulam pela casa de dona Rita. Ele jamais poderia imaginar que causaria fuzuê.

Ficou nítido que Natália e sua irmã, Nara, não poderiam contar com Sérgio para retirar o sapo. Dona Rita, mãe delas, mostrava-se disposta a permanecer no sofá pelo resto dos dias. Natália e Nara se olharam. Saíram. Natália voltou com um rodo; Nara trazia uma vassoura.

A contenda teve início. Nara tentaria varrê-lo; Natália, com o rodo, tentaria impedir o anfíbio de se enveredar pelos demais cômodos em busca da paz que havia sido interrompida.

Vai daqui, vai dali e dona Rita ia ficando menor e menor; Sérgio esticava o pescoço, vendo o labor de sua esposa. Não tinha como saber quem tinha mais medo de quem. O sapo vacilava, lutava; Nara tentava varrê-lo; Natália se ligava na cena. Nada do que William Bonner falasse poderia fazer com que se dispersassem.

Nara e o sapo. O sapo e Nara. Conseguindo encaixá-lo sob a vassoura, ela o domou. Já na porta da sala, Natália assumiu a operação e acabou de empurrá-lo. O sapo cruzou a varanda e foi ver televisão noutro lugar.

ZEZÃO
(7 de julho de 2000)

Ele foi um cachorro. Pelo design, parecia ser uma mistura de bulldog com vira-lata. Não era muito grande nem muito pequeno, tinha cor amarelecida. Não atacava ninguém nem outros cães.

Mesmo assim era um cachorro que chamava muito a atenção. Primeiro motivo: ele tinha um defeito na pata direita da frente. Acho que por atropelamento. Ele mancava. Sua pata jamais tocava o chão. Segundo: ele era bom de briga. Não sei precisar por qual dessas razões a fama dele se multiplicou. Pelas duas, não? Era surpreendente ver um cachorro que mancava ser capaz de surrar gente bem maior e bem mais equipada do que ele.

Zezão não perdia uma briga. Como dito, não era grande, mas era encorpado. Eu o vi enfrentar cães de nobre estirpe, cheios de pompa, de status, de pose, de essências aromáticas. Zezão não estava nem aí pra isso. Encarava quem quer que fosse, vindo de onde for, com sabedoria e com coragem. Cães vinham de longe para testar o poder de Zezão. E voltavam para casa derrotados. Jamais humilhados.

Zezão chamava a atenção pela discrição. Só brigava se requisitado. Não era desses cães chatos que não são de nada e ficam correndo atrás de qualquer um ou de qualquer coisa. Não. Zezão, não.

Ele me intrigava. Era meu ídolo de infância. Era meu herói. Não sei quantos anos eu tinha, mas sei que na época eu pensava que o segredo da força dele era comer muito feijão. Eu achava que ele tinha cara de quem comia muito feijão.

Eu ficava ansioso para ser uma testemunha da próxima briga de Zezão. Houve vezes em que pensei que ele não conseguiria. Mesmo quando ele bateu no pequinês que havia lá em casa, não fiquei com raiva do Zezão. Lulu (o lá de casa) era encrenqueiro, achava que podia peitar qualquer um. Escapulindo da coleira, foi dar uma de bravo com o Zezão. Sangrando, o jeito foi Lulu voltar com o rabo entre as pernas.

Zezão, este é meu tributo. Homenagem aquém do homenageado. Quando foi que você morreu? De qualquer modo, obrigado, Zezão.

REX

A família estava almoçando. Eram doze pessoas numa pequena casa. Pai e mãe estavam taciturnos. Os filhos, sempre correndo, passariam poucos minutos em casa, antes de voltar correndo para o trabalho.

Então, no quintal, ouvem um alvoroço. A princípio, não souberam bem do que se tratava. Depois, ouviram o latido grave do cachorro. As galinhas, assustadas, cacarejavam. A matriarca, lacônica: “É aquele cachorro de novo”. Voltou a comer. Nem um minuto se passou e o fuzuê começou de novo no quintal. A matriarca, lacônica: “João, vai lá e dá um jeito naquele cachorro”.

João, calmamente, silenciosamente, mastigou a comida, engoliu, enfiou mais um bocado na boca e, inexpressivo, caminhou para o quintal. Chamou pelo cachorro, que logo atendeu, indo contente ao encontro do dono, abanando o rabo. Pela coleira, levou o imenso animal até o local em que ele ficava quando amarrado. Prendeu o cão e, inexpressivo, apanhou um pedaço de pau.
Começou a bater no cachorro. Os integrantes da família que estavam em casa lá continuaram. O bicho tentava se safar, mas as pancadas eram impiedosas e cheias de raiva. Quanto mais Rex tentava se safar, mais a raiva de João aumentava, não se importando onde o cachorro era atingido. A boca dele já estava sangrando.

No fundo da casa em que a família mora há uma fabriqueta. O espaço é alugado pela família. Dois dos funcionários da pequena fábrica, alarmados pelo desespero do cachorro, deixaram o trabalho e saíram, para ver o que acontecia. Assim que chegaram ao umbral que dava para fora, puderam ouvir a matriarca, que havia saído de casa e dava ordens: “Isso, João. Capricha. Agora quero ver se ele não aprende a não incomodar mais as galinhas”. O filho caprichava. O cachorro já não mais oferecia muita resistência. Cansado, resfolegando, perdera o ímpeto que tivera quando a surra começou. Aceitava as pancadas, que não cessavam, não mais tentando arrebentar a corda que o prendia. Seguindo o instinto, investira contra o dono, o que só fez com que este, colérico, com mais força batesse.

Os funcionários, vendo o estado em que o cão já estava, pensaram em intervir, certos de que o rapaz acabaria matando o viçoso Rex. Nisso, a mãe, ao ver que mais alguns filhos estavam também saindo de casa para ver o fato, mandou que um deles buscasse um porrete maior, para o qual ela apontara. O menino obedeceu. “Leva pro João”, disse ela. João apanhou o pedaço de pau maior e mais pesado e pareceu dobrar sua força. O cachorro já era só passividade. Os empregados, quando começaram a caminhar, receberam de outro dos irmãos a admoestação: “Para o bem de vocês, voltem pro trabalho”.

Suado, cansado, João tirou a camisa sob um sol de meio-dia que não dava trégua. Jogou no chão o pedaço de pau e passou a chutar Rex, que estava deitado, sangrando, de olhos fechados. “Isso é pra você aprender a não mexer mais com as galinhas. Toma!”. O cachorro não achava forças para se movimentar, mas era sacudido pelos golpes. João o pegou pelo pescoço, começou a enforcá-lo: “Vai mexer mais com as galinhas? Vai?”. Rex, inerte, abriu os olhos. João apanhou um pedaço de pau menor que estava por perto e o enfiou na boca do cachorro, empurrando-o o mais forte que podia pela goela do bicho. Ao deixar livre a boca do cachorro, acomodou as mãos na boca de Rex e começou a abri-la o máximo que conseguiu. Depois, o largou, lavou as mãos e foi comer mais um pouco.
Rex está morto.

ESTÁTUA

Dos olhos, lágrimas, por ficar muito tempo mantendo-os abertos. A atriz fazia papel de estátua. Estava maquiada, usava roupa pesada e quente para a tarefa que tinha de desempenhar. Algumas pessoas observavam, aguardavam alguns minutos, na tentativa de capturar um mínimo movimento da estátua. Outros preferiam dizer gracejos. As crianças se admiravam. Houve quem tirasse foto, houve quem fizesse pose ao lado da estátua. O calor era inclemente. De quinze em quinze minutos mudava-se a pose.
O papel duraria uma manhã inteira. Quando já estava na metade do trabalho, a atriz viu, ainda de longe, um rapaz de uns vinte e cinco anos se aproximando. Junto dele, um desses cachorros imensos, não sei de que raça. Chegando perto, o rapaz começou a dizer gracejos sem graça nenhuma, na tentativa de tirar a inabalável concentração.

Imobilidade.

Quando viu que sua intenção não se concretizava, ameaçou, dizendo que chegaria mais perto dela com o cachorro. 

Imobilidade.

A fim de testar até que ponto a suposta ausência de medo poderia ir, o espectador deu dois passos para mais perto da estátua, que pouco a pouco ia ficando com medo.

Imobilidade.

Enquanto ia dando corda para a fera, enquanto ia se aproximando, ele olhava para a expressão da atriz, na intenção de detectar uma mínima alteração, um quê de medo, uma reação – não importa qual. O rapaz não conseguia manter seu olhar no olhar da atriz. Mal ela achava o olhar dele, ele olhava para o cachorro; depois, para ela de novo, sem a mesma coragem de segurar o olhar. Dizia que o cachorro adorava carne, que não comia há três dias, que havia sido levado ali para se alimentar. Enquanto isso, aproximava-se, passo a passo, segundo a segundo. O animal arfava, cheirava, esticava a corda que o prendia, insistia com veemência para chegar perto da branca estátua. O rapaz ia permitindo.

Imobilidade.

Já bem perto, o cachorro rosnou. O torturador ria, prosseguia com suas asneiras: “Quero ver agora se você não mexe. Pula nela, Sansão”. A atriz, por dentro, pedia socorro, amaldiçoava o rapaz; por fora, permanecia estátua, que olhava fundo nos olhos do homem, que nunca teve a coragem de manter o olhar.

Imobilidade.

Num átimo, as patas do cão vão parar no peito dela, que tem de se esforçar para não cair, que se esforça muito para não mudar de posição. O bafo do cachorro está perto do rosto dela. A língua irracional sente o gosto da maquiagem que cobre o rosto da mulher.

Imobilidade.

O homem, após alguns segundos, assume a derrota: “É; essa aí é forte mesmo”. Depois, saiu. A estátua ficou olhando os dois, observando uma besta desgraçada a puxar um cachorro. Dos olhos, lágrimas.




OS AMORES



UMA TÍPICA INDECISÃO
(2a quinzena de fevereiro de 1994)

Pensei que choveria. Não choveu. Bem poderia ter chovido. Como se não bastasse o calor, é bom se ensopar de vez em quando.

Eu voltava para casa, e em meio a um relâmpago e outro, eu me perguntava o motivo pelo qual as coisas haviam tomado o rumo que tomaram. Não sabia se era culpa minha, se era culpa dela, de nós dois, de mais alguém além de nós, de todo mundo ou de ninguém. E isso muito me incomodava, e mais ainda o fato de eu pensar que me faltava coragem para dar um fim definitivo à nossa relação. Não sei se incentivado pela tensão do momento, decidi que era imperioso, no dia seguinte, logo pela manhã, ir até a casa dela e dizer que tudo estava mesmo acabado e ponto e pronto.

Dormi com essa intenção, que era imutável. Tive, naquela noite, sonhos estranhos. Num deles, dois animaizinhos totalmente diferentes entre si estavam metidos em apuros. Quando acordei, arriscando uma interpretação para o sonho, pensei que esses tais dois animaizinhos bem poderiam ser os símbolos de ela e de mim, e isso me fez como nunca querer invariavelmente o término de nosso namoro, pois éramos (assim interpretei) dois animaizinhos sem um níquel sequer de afinidade. 

Novamente dormi, tive um outro sonho, ligado a meu local de trabalho. Esse sonho, julguei não dizer respeito à questão afetiva que eu então vivia.

Acordei com o corpo cansado, embora tenha dormido umas onze, doze horas – ou talvez seja essa a razão do cansaço. Aquela inevitável decisão da noite passada já vacilava em sua intensidade. Péssimo sinal. Precisava achar coragem o bastante para terminar. Teorizei então sobre o que sentia, o que ela sentia (dizia sentir); teorizei e pensei e tentei achar um nome para o que eu sentia. Amor não era, foi o que concluí. Mas uma conclusão muito tímida, sem impetuosidade para se valer na prática. Quando veio a tarde, enviei flores para ela.

DEUS TE AJUDE
(16 de junho de 1995)

Era uma dessas tardes de outono em que quando se está ao sol, faz calor; quando se está à sombra, frio. Eu havia me levantado bem tarde, tarde mesmo, pois já eram duas da tarde. Levantei-me cansado, pensando comigo mesmo que até dormir demais cansa. Liguei o rádio e decidi sair de casa para amenizar o frio. Já do lado de fora, voltei até meu quarto para apanhar a chave do portão, que estava trancado.

Outra vez ao sol, caminhei tranquilamente até o portão. Enquanto o destrancava, espirrei. Nesse exato momento uma garota morena, magra e alta passava em frente à minha casa, de bicicleta. Ela ouviu o espirro e, sem pestanejar, gritou o tradicional “Deus te ajude”, de uma forma descontraída. Olhei para ela, que já se distanciava, e retribuí com o também tradicional amém.

Só que ao vê-la, me deu uma vontade imensa de falar com ela. Não me lembro de tê-la visto anteriormente, mas de imediato me senti atraído por sua espontaneidade. Quando a vi, me senti atraído pelo resto. Pensei em chamá-la, pois após meu amém ela continuou olhando para trás e sorrindo. Pensar se chamava ou não foi meu vacilo. Logo logo ela se afastou. Logo logo me arrependi, e por enquanto não mais a revi.

Tudo foi muito rápido, mas assim que cometi o vacilo, pensei que tal acontecimento poderia ser prato cheio para uma crônica. E para dizer a verdade, ela, a crônica, bem que poderia funcionar como um recado.

OS DOIS
(6 de setembro de 1996)

Eles se vêem há mais ou menos doze anos. No começo, ele mexia com ela, que nem dava bola. Por ela agir assim, ele lhe dirigia palavrões que não podem ser publicados por este jornal. Ela, por sua vez, pensava impropérios também impublicáveis.

Aproximadamente oito anos depois se tornaram colegas de sala. Ele se sentiu, a princípio, pouco à vontade, e ela não deixou por menos: fez questão de comentar com ele sobre a época em que não se entendiam.

Como colegas de sala, entenderam-se. Ele estava, naqueles tempos, se interessando por todas. Portanto, não haveria problema em se interessar por ela. Com o passar do tempo, entretanto, ele ia percebendo que a morena de olhar calmo tomava conta de seu pensamento. Olhares sugestivos tornaram-se comuns; pretextos para se aproximarem um do outro não faltavam. Passariam a fazer juntos provas e trabalhos. Estendendo a comunhão, começaram a namorar.

Viam-se todos os dias, e contrariando as artimanhas dos teóricos, faziam com que a saudade aumentasse entre um dia e outro. Por essa época, brigavam devido a um fortuito namoro entre ela e um amigo de ambos, ocorrido um pouco antes dessa história de provas e trabalhos escolares feitos a dois. Com o passar dos tempos as brigas eram geradas por outros fatores, principalmente alcoólicos. Por vezes tinha-se a impressão de que o que destruiria o relacionamento deles não seria uma nota ruim. O álcool perdeu.

Fortalecida a relação, não permitiram que se acabasse o que já era um noivado. Iniciaram a construção de uma casa, daquelas bem demoradas, comprando aos poucos os materiais. A casa já tem teto. O acabamento vai demorar a ser terminado. Já pensam na cor das paredes, eletrodomésticos e móveis. Tudo vindo aos poucos, de mansinho, como geralmente ocorre com o amor. Gostam muito um do outro e ousam crer no relacionamento. Oxalá consigam manter longe deles a falta de entusiasmo, a iniquidade. Tomara que consigam alimento, paciência e felicidade.

Quando a deixa em casa, ele só vai embora depois que ela acende a luz. Qualquer dia desses vão apagá-la juntos.

HISTÓRIA DE UM PAR DE MÃOS
(20 de setembro de 1996)

Certa vez ela me ligou em meu local de trabalho. Conversamos mais ou menos uma hora e meia. Papo vai, papo vem, e ela me disse que viera da região norte. Falou muito de si, que estava se mudando para Patos de Minas, onde moraria com uma irmã. Falamos de nós, de gostos musicais e decidimos que nos conheceríamos, entusiasmados com o diálogo que mantivemos.

Foi também em meu local de trabalho que ela surgiu numa tarde de não me lembro qual dia nem ano. Era uma tarde de calor, e acho que ela usava um vestido ou coisa parecida. Aproximadamente um metro e setenta ou oitenta, cabelos longos e ondulados. A pele clara, os olhos castanhos-escuros. Era magra, irresistivelmente atraente.

Diante de tal aparição, fiquei a princípio meio perdido. Eu não sabia direito o que fazer, falar, e tentava desajeitadamente esconder minha falta de jeito. Eu não conseguia olhar para aquele rosto sem me imaginar acariciando-o, beijando aqueles lábios. Teríamos de nos rever de um jeito ou de outro, e isso teria de ficar bem claro naquele primeiro encontro.

Enquanto ela falava, fiquei sabendo onde ela estudaria, por exemplo, o que poderia facilitar um futuro reencontro. Ela, obviamente, soube o número de meu telefone, onde eu morava e, se quisesse, saberia o que bem entendesse, quando e onde quisesse.

Não me lembro mais se havia sido sugerido por mim, ou se partira dela, percorrermos o restante das salas de meu local de trabalho. Assim foi feito, e enquanto ela caminhava, eu reparava naquele corpo sugestivo. Terminada a turnê, ela me disse que iria embora. Eu disse a ela para ficar; afinal, em poucos minutos eu estaria liberado. Ela aguardou. Encerrado meu horário de trabalho, fomos até a cozinha para dar um jeito na sede dela. Bebeu muita água, agradeceu. Começamos a caminhar lado a lado num estreito corredor, enquanto eu tentava roçar a mão na dela, não tendo realizado minha intenção. Viramos à direita, ainda num corredor, caminhando lentamente, fazendo o máximo (pelo menos eu estava) para adiar aquele momento em que ocorreria nossa primeira despedida, descontada a que já havia sido feita por telefone.

Estando eu à esquerda dela, dei um giro de cento e oitenta graus e desci o primeiro degrau da escada, com a mão esquerda no corrimão. No ínfimo (íntimo?) instante em que eu descia o degrau, ficamos numa posição tal que estávamos de frente um para o outro, e, aproveitando aquele brevíssimo momento, resvalei a mão na dela, o que jamais esqueci.

Uns três anos depois, perguntei pra ela se ela se lembrava da primeira vez em que a tocara. Ela disse que sim.

CONVITE DE CASAMENTO
(1o de novembro de 1996)

Quando fui requisitado para a tarefa, éramos colegas de sala. Ele, paquerando uma garota há algum tempo, pediu-me para escrever algo para ela, como se fosse ele o autor do que seria escrito. O poema – foi o que ele me pediu – acompanharia um presente. Topei escrevê-lo, mas não sem deixar bem claro que, caso a conquista malograsse, não poderia ele me culpar de forma alguma. Afirmei também, alegando experiência própria, duvidar do poder da poesia como tática para a conquista. (Lembrei-me de um trecho lido no prefácio do livro “Cyrano de Bergerac”: “Rostand imediatamente relacionou a situação com a infeliz história sentimental de Cyrano de Bergerac, que, incapaz de conquistar para si mesmo o afeto de Roxana, a mulher amada, conquistou-o através de palavras apaixonadas, em nome do outro, para seu jovem amigo Cristiano.”)

Escrito o poema, pedi a ele que me mantivesse informado sobre a peleja. Foi com satisfação que fiquei sabendo que sairiam num sábado. Mais satisfação ainda foi constatar que o fato de eles saírem aos sábados foi se tornando a regra, até o ponto em que o namoro já era uma regra, e não seria exagerado afirmar que o amor é que parecia estar ditando as regras. O tempo passava e a relação se consolidava, como se ela fosse a Monica e ele fosse o Eduardo.

Aos domingos, eu geralmente almoçava na casa dele. Ela também se fazia presente. Como observador, eu frequentemente pensava que aquela história seria coisa para casamento. Enquanto essa hora não vinha, ele e eu conversávamos amiúde sobre o tempo em que os dois começaram a namorar. Numa dessas conversas ele me disse que certa vez ela mostraria para ele o poema escrito por mim. Segundo me disse o amigo, o poema era guardado com o maior cuidado. Aquilo me deixara horrorizado. Ele também, sentindo-se pouco à vontade, quase contou para ela que o poema não era dele. Não contou. As vezes em que pensou em contar foram muitas, mas jamais contaria.

Eu achava bom vê-los juntos. Ele é meu amigo, e é bom imaginar que uma pequena contribuição minha pode ter ocorrido para que os dois ficassem um com o outro. Com o passar do tempo afastei-me deles, mas coisa comum era vê-los passeando, sempre deixando transparecer contentamento. Foram se tornando raras as vezes em que eu os via, até o ponto de praticamente não vê-los mais; de vez em quando eu ficava sabendo que estavam bem.

Um dia desses, lendo um convite de casamento, eu soube que ele se casaria. Com outra.

 “DONOS DA MADRUGADA”
(29 de novembro de 1996)

Ele a encontrou numa boate. Olhou para ela e viu que ela olhava para ele. Ele desviou o olhar. Algum tempo e ele voltou a olhar. Ela também. Os dois se olhavam e dançavam. Música envolvente, ritmo contagiante, álcool inebriante, luzes sugestivas. A madrugada prometia; o clima era algo como o que é descrito na canção “Olhos Vermelhos”, de Guilherme Arantes.

Entre uma cerveja e outra os olhares se tornavam mais cheios de segundas intenções, de modo que ao perceber que ela compraria outra cerveja, ele partiu em sua direção, alcançando-a assim que ela acabara de pedir mais uma. Ele a cumprimentou e pediu a ela para aguardar. Comprou outra também e sugeriu que os dois se sentassem.

Começaram a conversar. Deixando bem claro que o que ele diria não se tratava de uma das táticas mais propaladas no começo das conversas, comentou com ela ter a impressão de que os dois já haviam se visto. Para surpresa dele, ela afirmou tal impressão, ao dizer que eles já haviam se encontrado na casa dele, numa tarde de sol quente.

Ele se admirou com a memória da garota. Pediu a ela melhores detalhes do encontro e recebeu dela o relatório de que eles haviam se encontrado num certo dia em que ela, passando em frente à casa dele, pediu a ele um copo d’água. Ele, segundo ela, prontificando-se a ajudar, convidou-a para entrar. Ainda de acordo com a donzela, assim que ela passou pelo portão, ele, sem mais delongas, a beijou três vezes. Todas as três na boca.

Aquilo era demais, e num daqueles momentos em que pensamos muitas coisas ao mesmo tempo, ele tentou se lembrar dos beijos; perguntou-se a razão pela qual foram três os beijos, achando curioso tal número; pensou se era por causa das cervejas que ele não conseguia se lembrar. Concentrou-se, olhou-a fixamente. E nada. Entregando os pontos, ele falou que não se lembrava de nada. Ela não se deu por vencida: descreveu a roupa que ele usava, a casa onde mora. Disse até que na época ele namorava uma garota loira e alta, coisa que era a maior das verdades. Já constrangido e pouco disposto a quebrar a cabeça, ele disse estar se lembrando vagamente dos três beijos, pois o que ele queria mesmo era beijá-la ali na boate, não vendo nenhum problema em concordar com a aguçada memória da garota de pele morena e cabelos curtinhos. Afirmou que se lembrara do fato, chegando até a perguntá-la se ela usava na ocasião uma bermuda verde.

Ela, por sua vez, perguntou a ele se havia se lembrado mesmo. Recebendo resposta afirmativa, ela disse que tudo não passava de uma brincadeira, que eles jamais haviam se beijado.

VESTIDO MARROM
(13 de dezembro de 1996)

Eu estava num daqueles dias em que nada de extraordinariamente bom ocorre. Também nada de trágico. Minha vida havia sido linear: eu acordara cedo, e com muito sono. Trabalharia com sono e com sono chegaria em casa, um pouco antes do meio-dia. Almocei comida farta enquanto reparava na televisão. Quando terminei de almoçar e pensei que teria uma tarde agitada, produtiva, veio o sono pesado, por causa da noite anterior, passada quase toda em claro. Decidi me deitar no sofá, com intenção de cochilar. Assim que fechei os olhos, se eu não tivesse ficado esperto, eu teria dormido lá por horas e horas. Rendendo-me, fui para a cama.

Sei que sonhei, mas não me lembro com o quê. O telefone tocou, levantei-me para atendê-lo e não mais voltei para a cama. Dormira uma tarde inteira, quase já era hora de trabalhar novamente.

Quando eu estava de saída, vasculhei as ruas. Como moro numa casa de esquina, meu campo de visão é amplo, podendo eu observar as meninas que passam, estejam elas subindo ou descendo a Duque de Caxias ou a Minas Gerais. E foi da Minas Gerais que vi um par de pernas descendo. Há uma árvore do outro lado da rua que não me permitiu ver de imediato a quem pertencia aquele andar sutil, aquelas pernas perfeitas com esmero. Um vestido marrom, um pouco acima do joelho, farfalhando, dava um encanto maior ainda àquela vista. Ela se aproximava, ia se aproximando, e eu já podia divisar quase todo o corpo dela, e quando isso se tornou fato, estando ela praticamente na esquina, pude ver seu rosto, que combinava com as demais belezas que aquele vestido sugeria. Chegando ao cruzamento das ruas, ela parou, olhou para a esquerda e sorriu. Fiquei olhando na direção dela, para ver se ela olharia para mim, mas aquele sorriso não foi para quem escreve agora, aquele andar não foi em minha direção, o que de fato não me incomodou; afinal, não havia mesmo razão para que ela ficasse sorrindo para mim ou para que viesse em minha direção. Eu, sim, é que saí rindo à toa, contente por saber que existe nesse mundo alguém capaz de, mesmo sem saber, fazer com que outro sinta que viver é bom, que há beleza, leveza e sutileza. Não sabe ela que dela não me esquecerei, mas é agradável saber que dela me lembrarei.

AMOR EM PALAVRAS
(7 de junho de 1997)

– Pode ser o “Madame Bovary”.
– Você gosta de Flaubert?
– É o que vou descobrir.
– Eu gostei desse livro. Tem senso de humor, é sarcástico.

Marisa Chagas foi embora e levou o livro. Ultimamente havia se tornado comum o fato de ela usufruir da biblioteca de Márcio Pereira. Interessou-se pelos clássicos. O primeiro que leu foi “Moby Dick”. Gradativamente incrementando a amizade, Márcio passou a se sentir à vontade para expressar suas recomendações de forma eloquente. O empréstimo do livro passou a ser sempre precedido por um discurso em que até “ameaças” eram feitas, caso o exemplar voltasse sutilmente alterado. Outro cuidado tomado por Márcio era o de entregar o livro protegido por um plástico, exigindo também a devolução deste.

A amizade foi crescendo. Marisa sempre perguntava se o livro devolvido havia sido devidamente conferido por Márcio, por dentro e por fora. Ele se contentava em apenas dar uma olhadela por fora; nem se preocupava em conferir o estado das páginas.

Ele passou a confiar nela. Ele não entregava para ela apenas livros. Entregava um pouco de si e recebia um pouco dela. Um dia saíram. Conversaram muito sobre livros. Ela não deixou de perguntar-lhe se o último havia chegado em bom estado. Havia, e já estava na estante, com cada vírgula em seu lugar. Ao fim do encontro se beijaram. Três dias depois Márcio recebeu um envelope. Dentro, o papel dizia:

“Estou indo embora para muito longe; talvez a gente nem se veja mais. Se você quer saber o que sinto por você, leia os recados que deixei entre as páginas de cada um dos 16 livros que você me emprestou.

“Sua sempre,

“Marisa”.

O REENCONTRO
(14 de julho de 1997)

Lembrar é pouco. Eu me arrependo.

Também não é tanto assim. Eu me arrependo um pouco. Não é um arrependimento contundente. É quase saudade.

A casa dela era parte de meu caminho. Ir para a escola era passar em frente à casa dela. Passar em frente à casa dela era vê-la. Vê-la era parte de meu caminho. Tudo cronometrado. Eu olhava para o relógio o tempo todo. Quando ela fechava o portão e começava a caminhar, geralmente bem próximo a mim, eu não tinha coragem de olhar. Não foi nem uma vez nem duas. Talvez umas cento e setenta e sete ou coisa assim. Isso sem contar com o inesperado, ocasiões em que eu podia vê-la desuniformizada.

Eu tinha os meus doze ou treze. Ela também. Não estudávamos na mesma escola, e caminhávamos juntos por quase um quarteirão quase todos os dias. Às vezes lado a lado mesmo, praticamente colados, “na direção do dia”. De tanto vê-la sair para a escola sempre naquela hora, passei a achar que era por minha causa. Nem isso me dava coragem para dizer-lhe algo: apenas fazia com que eu cumprisse com precisão solar meus horários. Eu invariavelmente adiava para o dia seguinte o primeiro oi. Todo o desconforto em mim era imenso. Eu jurava que teria audácia, sagacidade, perspicácia, sabedoria, pertinácia e carisma para dizer a primeira palavra, que não vinha. Afogava-se em minha garganta para voltar à tona no outro dia.

Ela se mudou. Foi não sei para onde. Fiquei sem nada dizer, até um dia em que, enquanto aguardava na fila para enviar uma correspondência, tive a impressão de que alguém me olhara. Olhei e a vi também, na fila. Entre mim e ela, duas pessoas. Todo aquele silêncio daqueles oito ou nove anos que haviam se passado se rebelou. Ainda que fosse necessário abandonar a fila, eu falaria com ela. Chegada sua vez, fiquei aguardando. Chegada minha vez, ela ainda parada. Saí e fiquei aguardando. Assim que ela saiu, eu, com o coração a mil, perguntei-lhe se ela havia sido minha vizinha.

Ela pediu um de sabor de morango. O meu era de chocolate.

BANCO 2 – A SAGA CONTINUA
(1º de fevereiro de 1998)

Ela chegou ao banco. Quase voltou. A fila era imensa, ocupava todo aquele andar do edifício, contorcendo-se, dando voltas e voltas de impaciência, olhares frequentes para o mostrador do relógio e mudanças corporais zangadas. Mas era dia de pagamento, pagamento de contas. O jeito seria mesmo aguardar.

Loira, alta, vestindo saia vermelha curta, camiseta branca. Os cabelos longos estavam soltos. Dava mesmo vontade de ficar olhando, e isso era o que muitos faziam, conseguindo fazer com que o tempo passasse de forma agradável, como muito bem já havia explicado Einstein, quando lhe pediram para jogar luz, de um jeito simples, em sua famosa teoria: “Quando um homem se senta ao lado de uma moça bonita, durante uma hora, tem a impressão de que se passou apenas um minuto. Deixe-o sentar-se sobre um fogão quente durante um minuto somente – e esse minuto lhe parecerá mais comprido do que uma hora”.

Eu era um dos olhadores, e tanto olhava, que às vezes era preciso estar praticamente voltado para quem estava atrás de mim na fila. Valia o esforço, valia tudo para contemplar aquela maravilha. Enquanto isso, eu ia pensando no que faria para dar um jeito de falar com ela dessa vez. Eu já estava prestes a ser atendido, mas certamente eu teria alguns minutos para planejar a estratégia. Desde quando ela chegara, eu já sabia exatamente o que fazer, só que por achar o plano de difícil execução, por ele exigir uma certa dose de ousadia, o que eu tentava mesmo era conceber algo mais prático, algo que exigisse menos de mim, que me mantivesse ausente, dando um jeito de estar presente sem estar por perto. Eu olhava em torno, como que pedindo ajuda às faces desconhecidas, mesmo sabendo que se conhecesse alguém não teria coragem de compartilhar com esse alguém meus recônditos planos, remoídos enquanto eu me aproximava do momento em que seria atendido.

Tal momento veio. Meu tempo estava se esgotando. Minha hora já chegara. Ansioso, entreguei ao caixa o cheque. Realizada a operação, fingi existir em mim uma coragem fenomenal e parti rumo a meu destino. Ao chegar perto dela, entreguei-lhe um papel dobrado, após dizer-lhe: “Isso é pra você; espero que goste”. Saí imediatamente. No papel, além de meu nome e de meu telefone, estava escrito: Há um mês eu vi você aqui. Só agora decidi me manifestar. Você tornou a espera na fila agradável. A partir de agora, torne mais agradável minha vida.

FLOREADO
(28 de fevereiro de 1998)

Era uma tarde extremamente quente. Flávio, com o coração disparado, chegou à floricultura.

– Eu gostaria de comprar um buquê.
– Você quer rosas?
– Deixe-me dar uma olhada nelas.
– Essas vermelhas são muito enviadas. Temos também aquelas brancas.
– Eu não entendo nada de flores. O que você sugere?
– Crisântemos.
– Onde estão?
– Por aqui. Venha cá.
– São mesmo bonitos.
– São. Você pode escolher o arranjo. Se quiser, pode enviar rosas, crisântemos, violetas...
– Violetas. Deixe-me vê-las.
– Temos essas aí.
– Pior é que estou em dúvida. Não sei se envio rosas, crisântemos, violetas ou o que for.
Após rápido exame, Flávio decide comprar os crisântemos. O arranjo ficou pronto.
– Tome. Escreva neste cartão o seu recado. Pode escrever o endereço aqui.
– Eu mesmo prefiro entregar. Vou passar um susto nela. Ela não está muito longe daqui não.
– Tudo bem.
Flávio se despediu da vendedora e saiu carregando os crisântemos. Nunca havia lidado com nada disso. Teve medo de que o calor horrendo pudesse prejudicar as plantas. Perguntou-se se plantas ficavam desidratadas. Quando chegou ao trabalho, os colegas perguntaram-no como ele se sentia tendo recebido flores.
– Não são flores. São crisântemos.
– É tudo igual.

Flávio apanhou um envelope, colocou dentro um cartão. Começou a se remoer. Enquanto se debatia, Cristina, a vendedora, recebia belos crisântemos.

HOMEM GOSTA DE MULHER FÁCIL?
(20 de junho de 1998)

Há algum tempo eu estava pensando naquele dito que reza: “Tudo que vem fácil vai embora fácil”. Tenho muita vontade de discordar desse enunciado, mas ainda não achei argumentos convincentes. Nem sei se acharei. Outro dito que não me agrada é aquele que diz que “de mulher fácil o homem não gosta”. Também já tentei achar argumentos para repudiá-lo apropriadamente, mas, até agora, nada feito. Na essência dos dois estão pregando a mesma coisa, expressa em um outro adágio: “A gente só dá valor às coisas quando elas são difíceis”. Desnecessário escrever (mas vou escrever mesmo assim) que já tentei achar argumentos para refutar também esse dito.

A vontade de achá-los esbarra em certos episódios que me deixam com a sensação de que os adágios parecem mesmo estar corretos. Quando o Brasil foi campeão mundial pela quarta vez, na copa dos EUA, vibrei muito, e não apenas na decisão. Quanto mais difíceis os jogos, mais eu vibrava, mais eu valorizava as vitórias da seleção. Já na estreia do Brasil na Copa deste ano, não vibrei muito, pois achei o jogo fácil para o time brasileiro. Mesmo com a Escócia tendo marcado um gol e empatado a partida, não fui envolvido pelo temor de que o Brasil poderia perdê-la. Quando o jogo terminou, nem vibrei. Achei bom, mas nem tanto.

Deixando pra lá o futebol e falando de mulheres. Quando a mulher se entrega facilmente, logo me lembro dos adágios. Fico pensando se terei realmente de concordar com eles. A impressão de que eles revelam algo verdadeiro fica se insinuando. Meu pensamento a refuta, mas ela não deixa de ficar cutucando. Parece haver, sim, uma tendência nossa a valorizar a conquista, aquilo que exige de nós, que nos faz bolar aventuras, enviar buquês, tramar encontros, memorizar horários. Parece mesmo ser necessário exercer essa faceta. Se a relação começa fácil e segue fácil, sentimos falta de um tempero.

Eu, confesso, queria que tudo viesse facilmente, que a vida fosse o tal mar-de-rosas. Como viver não é fácil, a gente acaba tendo mesmo de lutar muito. É preciso superar a preguiça. Mas se ela é tão maléfica, por que existe tão expressivamente? Mesmo assim, suspeito de que vale a pena superá-la. O caminho da preguiça é o caminho mais fácil. Agir custa muito, é necessário ter disciplina, é necessário manter-se vigilante, é necessário saber recomeçar e aprender a perder. As coisas não acontecem num passe de mágica. Ao olhar para a lava, pense na trama que a engendrou.

OLHAR PARA TRÁS

Eu estava indo trabalhar. Como não poderia deixar de ser, numa bicicleta. (Aliás, tenho pensado em abandonar minha bicicleta. Estou me sentindo velho para andar de bicicleta, e se ainda não a abandonei, é pela razão de não ter dinheiro para comprar um outro veículo.) Fazia frio, ventava muito. Era uma manhã ensolarada e ao mesmo tempo fria – uma daquelas manhãs que são assim: se estamos ao sol, tudo bem; se não, muito frio.

No momento em que eu estava na esquina da José de Santana com a Getúlio Vargas, eu a vi se aproximando. Alta, magra, cabelos lisos, usava roupa preta. Os cabelos eram agitados pelo vento, belamente agitados pelo vento. Pareceu-me ser bem nova; em torno de 20 anos, talvez. Nossos olhares se encontraram. Eu não poderia dizer que o momento foi longo, mas durou o bastante para eu ter a impressão de que ela havia olhado para mim de um modo familiar, como se já nos conhecêssemos; durou o bastante para que eu pesquisasse na memória sua presença, sem achá-la; durou o bastante para que olhássemos nos olhos um do outro; durou o bastante para que discretamente sorríssemos.

Segui meu caminho mais animado. Por um instante, tive vontade de voltar para conversar com ela, dizer-lhe o quanto havia sido agradável vê-la naquela manhã, convidá-la para sair, estar perto dela. Momento que também não foi longo, mas que durou o suficiente para eu pensar que poderia estar jogando fora mais uma grande oportunidade; durou o suficiente para que eu me imaginasse contando para ela meu desejo de aproximação; durou o suficiente para que eu decidisse ser ao mesmo tempo impetuoso e sutil. Precisava muito dizer para ela todo o bem que ela me fez. “Vou lá”, pensei. Mas não fui. Apenas olhei para trás.

Ela me olhava! Ela também havia se voltado, no exato momento em que chegava ao ponto de ônibus. O vento mexia com seus cabelos, enquanto ela tentava ajeitá-los. Já estávamos a uma considerável distância um do outro, e nossos olhares se encontraram. Ocasião que também não foi longa, mas durou o bastante para fazer com que eu me lembrasse dela pelo resto do dia; durou o suficiente para que eu tomasse a decisão de descobrir um modo de entrar em contato com ela. Tenho de revê-la.

Onde estás? O que fazer para te ver novamente? E se amanhã eu não conseguir te ver nos mesmos horário e local? Quantas vezes terei de investir na “coincidência” de nosso encontro? Vou me permitir acreditar que olhamos para trás ao mesmo tempo porque buscas o que busco. Hei de te rever, minha bela.

A MULHER LINDA

Por que a lindeza da mulher linda tanto atrai? Quando a mulher linda se acha feia?

Como não se modificar diante da mulher linda? Como não ter vontade de urrar, berrar, uivar ou relinchar ao se passar por uma mulher linda? Como não ter vontade de segui-la e de dizer para ela que ela é a coisa mais linda que há no mundo? Como não querer gritar, pular, dar cambalhota, plantar bananeira? Como não querer ficar olhando para ela o tempo todo? Como não dizer para ela que ela é linda? Como não se acender e como não ter vontade de largar tudo e ficar só por conta dela, pelo prazer de contemplá-la?

O que é mais lindo do que uma mulher linda? Muitas? Como será se sentir enjoado da cara de uma mulher linda? Enjoa-se da cara de uma mulher linda? Se assim for, o que preciso fazer para correr o risco e, quem sabe, jamais me enjoar?

Por que a mulher linda faz as ideias da gente ferverem? Como não encarar a mulher linda? O que fazer para se esquecer da mulher linda? Outra? E para se esquecer desta? Outras? Quantas outras?

Quantas mulheres lindas há em Patos de Minas? E no mundo?

Mulher linda, envelhecer dói? O que fazes para que percebam teus outros encantos? E, assim sendo, como não te querer, pô, se tens encanto pra tudo quanto é lado?

Qual é melhor? A linda que sabe que é linda ou a que não sabe? Ambas? Todas? O que fazer diante de uma mulher linda? E de duas então? E quando a cantada vem de muitos mas não vem de quem ela mais quer? Até que ponto a linda consegue resistir a tantos e a tantas?

Em média, para quantos a mulher linda é inesquecível? A mulher linda deve fazer justiça à beleza que tem? Como? Deve agradecer a beleza que tem? Agradecer a quem? Ou não deve agradecer a ninguém nem a nada?

Mulher linda é mais linda ao amar ou ao ser abandonada? Dependente ou independente? Feliz ou triste? Forte ou fraca? É bonita de qualquer jeito? Mesmo quando prepotente? O que estraga a beleza de uma mulher linda? O que a faz mais linda? Como tornar lindo o que lindo já é? Quão difícil é para ela querer tanto provar que é mais coisas além de linda?

O que terá feito aquela mulher linda marcar o rosto dela com um estilete?



AS CRIANÇAS



PINTANDO O SETE
(10 de novembro de 1995)

Houve um tempo em que ao ouvir ou ler no nome Rafael eu me lembrava de um pintor italiano. Era uma vez esse tempo.

Foi numa tarde de domingo. Eu havia sido convidado para novamente fazer parte do elenco de uma festa que havia se iniciado na noite anterior. Lá cheguei e encontrei praticamente os mesmos festeiros do sábado. Uma das exceções era um garoto de olhos espertos, cinco anos, pele e cabelos claros. No momento em que cheguei, ele estava jogando dominó com o pai dele, o anfitrião. O primeiro diálogo entre mim e Rafael não foi dos mais efusivos.

– Tudo bem, Rafael?
– Tudo – respondeu o garoto, olhando para mim com expressão de quem está curioso.

A festa prosseguia. Muita cerveja, música e sol. O calor era tanto que a farra estava sendo realizada na varanda. Para Rafael, a alta temperatura não era empecilho. O garoto não ficava quieto um minuto. Em breve se entrosaria com todos e com todo mundo brincaria. E como pulava, corria e comia. 

Houve um momento em que ele segurava uma peça da churrasqueira e com ela brincava como se fosse espada. Decidi fazer o mesmo e o desafiei. Ficamos um tempão nessa briga. Com muita dificuldade o convenci a darmos um tempo. Ele, agitadíssimo, me chamou para jogar dominó. Ganhei uma partida dele. Ele me ganhou duas. E podem acreditar: eu não perdi por querer dar a ele uma chance. Se o resultado foi esse, méritos para o jovem jogador. Terminadas as partidas, ele me propôs voltarmos à nossa briga, empunhando as espadas. Propus um embate sem armas. Ele topou. Já havíamos brigado muito quando uma amiga nos chamou para passearmos de bicicleta. Após um passeio de aproximadamente vinte minutos, na companhia de Rafael, voltamos para a festa, matamos a sede e ele molhou a cabeça com a água de uma torneira para se refrescar do calor. Sem perder tempo, foi praticar seus golpes com uma das convidadas.

Onde o garoto conseguiu tanta energia, não sei. Sei que ele não para. Comentei com o pai dele que provavelmente ele dormiria como pedra. E fácil foi perceber que dormir não é mesmo a meta que mais chama a atenção daquela criança tão comunicativa, ativa e inteligente. Sucesso para o Rafael em toda sua vida. Que ela seja longa.

UM MENINO
(1o de dezembro de 1995)

Houve uma época em que eu trabalhava aos domingos, às sete horas. Lembro-me de como era trabalhoso acordar cedo em plena manhã de domingo, num tempo em que eu tinha folga aos sábados. Muitas vezes eu nem dormia; era da farra para o trabalho. Também terrível era levantar-me em dia frio e chuvoso. Dava uma vontade de ficar sob as cobertas. Cada minuto sob as mesmas era imensamente usufruído. Levantar, só quando o último pingo de areia passasse por aquela ampulheta dominical.

Num daqueles dias frios levantei-me sonolento. Chovera durante a madrugada, mas, quando saí, não chovia. Assim que saí de casa pude ver um garoto vizinho meu, vindo de uma rua contígua à rua em que moro. Menino peralta, desses que desconhecem acanhamento, conversam com todos. Vi que ele dizia algo, mas não pude perceber o que era. Como eu estava de bicicleta, e ele, a pé, foi fácil alcançá-lo. Ao me aproximar dele, diminuí a velocidade para escutar o que ele alegremente dizia. Era o seguinte: “Bom dia. Acorda, gente!” Em toda casa pela qual passasse o garoto desejava bom dia e dizia aos moradores para se levantarem. Fui me distanciando dele até não mais escutar sua voz.

Ele, cedo na rua numa manhã fria de domingo. Ao escutá-lo e vê-lo tão disposto num dia em que eu estava tão apagado, animei-me, fui contagiado pela disposição do garoto. E tive um bom dia.

O HERÓI
(15 de dezembro de 1997)

Caía uma chuva de molhar bobo. Era sábado, era noite e éramos dois: Natália Alexandra e eu. Após debate, decidimos comer algo em algum restaurante. O Edgard (meu irmão) e a Rejane, que estariam num deles, contaram com as presenças da Natália e de seu namorado, e foi possível perceber que os dois (Edgard e Rejane) muito se compraziam com a presença carismática do casal Lívio/Natália. Tanto foi assim que a música executada pelos dois fluiu cristalina como riacho límpido.

Enquanto a música agradava a nós, após achar espaço por entre as pessoas que lotavam o ambiente, uma mesa próxima à nossa foi ocupada por um casal e três crianças. Família tradicional. O pai usava óculos e tinha jeito de ser severo com sua cria. A mãe tinha cara branda e era quem chamava a atenção dos rebentos, que insistiam em agir como se estivessem em seus quartos. Tudo típico. Crianças em idade escolar, acompanhadas pelos pais.

O padrão discreto deles era quebrado pelo que parecia ser o caçula. A calça e a camisa eram azuis. Azul escuro. A gola era bem grande e branca. O cinto também era branco. As botas eram azuis, mantendo o tom escuro. O que chamava mais a atenção era a capa vermelha: ele achava bom fazê-la se agitar, como se estivéssemos cruzando os céus, vivendo aventuras memoráveis dentro daquela roupa que não se parecia com a de nenhum herói mais conhecido. Cada gesto tinha uma outra dimensão para ele. Ao erguer um braço e esticá-lo, simulando um voo, ele percorria o mundo inteiro, ajudando gente das mais remotas regiões do planeta, sobrevoando um australiano e, pouco depois, seu antípoda, protegendo-nos da ameaça daqueles que pregam a discórdia e incentivando aqueles que insistem em acreditar no bem, numa luta incansável contra vilões mascarados ou não, refazendo as leis da física em sua saga cheia de todas as possibilidades.

Ele nem deu muita atenção à comida. Só parou um pouquinho de voar quando a capa teve de ser ajeitada, e para tal o herói não dispensou a ajuda e o colo da mãe. Refeito, foi logo partir rumo a mais um desafio, em Belo Horizonte. Lá, ele socorreu um ônibus lotado que voltava para casa após o trabalho. O veículo estava prestes a cair num buraco de uns vinte metros. Saindo de lá, ele foi para Joinville. No caminho, houve tempo para impedir um assalto numa rodovia. Deixando Joinville, sobrevoou uma partida no Maracanã e foi ver como estavam as coisas em Palmas.

CONSTITUIR FAMÍLIA
(15 de agosto de 1998)

Papai frequentemente diz que família é uma coisa muito boa porque raramente aparece. Um dia, quando eu disse para uma tia minha que eu gostava dela porque ela aparece pouco aqui em casa, mamãe brigou comigo depois. Não entendi.

Outra coisa que não entendo é por que dizem que sou muito inteligente. Dizem que aprendi a ler, a escrever e a fazer contas rapidinho. Também dizem que minhas perguntas são inteligentes, mas nem todas elas são respondidas por eles ou por meus irmãos. Será que é por serem inteligentes?

Um dia, por exemplo, uma das perguntas era sobre família. Perguntei pra minha mãe como é que se constitui uma família. Ela falou muitas coisas, mas não entendi quase nada. Depois perguntei pra ela se ela e papai estavam constituindo família uma vez em que eu entrei no quarto e eles me mandaram sair. Ela riu e disse que quando eu crescer eu vou saber.

Não fiquei satisfeito e perguntei pro meu irmão mais velho se ele e a namorada dele ficam constituindo família quando se trancam no quarto. Ele disse que não. Eu então perguntei o que eles ficam fazendo. Ele me disse que eles não ficam constituindo família porque eles se previnem para que isso não ocorra.

Aí é que fiquei mais encucado ainda. “Quer dizer então que tem como prevenir uma família?”, perguntei. “E não só uma família”, ele disse. Mesmo comigo insistindo, ele não quis dar mais detalhes sobre o assunto, e disse que noutra ocasião me explicaria tudo. Um dia a senhora me explica, professora?

Mesmo a senhora, professora, não responde todas as minhas perguntas. E a senhora é muito inteligente. Às vezes a senhora até acha graça do que pergunto. Não fique brava comigo por eu escrever isso. Nem me tire pontos. A senhora mesma disse que a gente poderia escrever sobre qualquer coisa.

Eu não entendo o mundo dos adultos. Mamãe diz que quando eu crescer vou entender. Tomara. Mas os adultos, quase sempre, não entendem o nosso mundo. Até parecem que nunca foram como sou agora. Quando eu crescer, quero me lembrar de que já fui criança.

Mamãe também vive dizendo que as crianças que são amadas pelos pais se tornam adultos equilibrados. Meus pais me amam. Quando eu crescer, além de médico, vou ser equilibrado. O Tiago não concorda. Ele me falou que a irmã mais velha dele é amada mas não é equilibrada. Por que será?

A BOLA CONTRA A PAREDE
(21 de novembro de 1998)

Tenho a péssima mania de ficar guardando as ideias para um futuro que nem sei se virá, à maneira de quem guarda uma carta na manga. Só que em meu caso, as cartas que fico guardando para escritos posteriores invariavelmente não são usadas em tais hipotéticas obras. Ficam apenas em minha cabeça, e muitas já caíram no esquecimento ou já foram depositadas no armazém das coisas que não merecem revisitas. É hora de mudar a história.

Já li em Luis Fernando Verissimo digressões sobre a bola com que a maioria dos garotos se envolve. Identifiquei-me com o texto.

Numa manhã longínqua, úmida ainda após a chuva, eu encontrei no quintal peças de um brinquedo. Para se brincar, deveriam elas ser encaixadas uma na outra. Não sei como esse brinquedo foi parar no quintal lá de casa; certo era que, um tanto desabilitado para montar coisas, um dia apanhei uma das peças e comecei a jogá-la para cima. A repetição desse gesto, sem que mesmo hoje eu saiba o motivo, incentivava minha imaginação. O tempo passou e a peça foi substituída por uma bola, o que fez com que histórias mais ousadas fossem concebidas. Era só eu começar a brincar com a bola e o mundo todo era uma só cidade, de modo que as viagens dos coletivos se pareciam viagens interestaduais, por causa dos longos percursos que deveriam ser empreendidos. Eu me imaginava sendo o motorista de um dos ônibus. Adorava o barulho do motor, o aperto dos passageiros, a correria no trânsito. Os ônibus por mim imaginados muito se pareciam com os ônibus em que eu andava quando morei em Brasília, ainda garoto, em 1975, se não me engano.

Jogando a bola contra a parede eu também imaginava uma partida de futebol. Disputa improvável, jogo em que a bola chegava a ser chutada sete ou oito vezes na trave, em poucos segundos. As decisões eram sempre entre os dois mesmos times. Um deles jamais conseguira ser o campeão, e as partidas giravam em torno das pressões que o perdedor exercia até o último instante, nunca com êxito.

Precisamos de algo exterior a nós para nos tornarmos o que somos. A bola me possibilitava isso, e até hoje não consegui algo que a substituísse. Pode ser que um dia qualquer eu volte a brincar com uma, eu volte a ser o que sou.



OS VELHOS




TEMPO
(23 de junho de 1995)

Li recentemente que um senhor de 90 anos (não me lembro do nome dele) ganhou um concurso literário e teve seu romance publicado (também não me lembro do nome do romance). O livro foi muito elogiado pela IstoÉ. Obteve algum reconhecimento aos 90 anos, aquele homem.

Citei esse exemplo porque ultimamente tenho pensado muito no tempo que as coisas levam para acontecer. Há quem se estabilize na juventude, há quem se perca na velhice. Sempre há tempo para uma reviravolta; o imprevisto não escolhe idade. Quem, por estar velho, pensa que se sabe por completo, pode ainda estar sem conhecer seu melhor. Ou pior.

O tempo modifica cores, esculpe estalactites, dizima estrelas. O mesmo tempo que nos transforma, enrugando a pele ou tornando brancos os cabelos, nos dá a oportunidade de nos lapidarmos.

O que hoje sou
não faz de mim
outro do que fui.
Sou hoje o mesmo,
só que melhorado.
O ter melhorado
não me torna outro.
O diamante lapidado
vale mais não porque
deixou de ser diamante,
mas porque foi lapidado.
E mais: o melhor nesse dia
de hoje não é saber o quanto
sou melhor e maior,
mas a noção do quanto
posso ser ainda
maior e melhor.

Paciência cabe no tempo. Dinamismo cabe na paciência.

BALADA
(23 de junho de 1997)

Já vi muita coisa, muita gente.
Daqui, nunca saí; aqui, vi gente de todo lugar.
Já vi gente boa que morreu jovem;
gente ruim que viveu um século;
gente boa que viveu muito;
gente que não passou dos vinte.

Conheci as maldades e as bondades.
As minhas e as dos outros.
Eu vi gente morrer perto de mim.
Custei a me acostumar a ver a morte de perto.
Hoje, não fico mais pensativo diante da morte.
Mas sempre fui pensativo diante da vida.

Os inconsequentes não me impressionam mais.
Os distantes não me impressionam mais.
Um Sol me aqueceu, vi as estrelas.
Criei meus filhos, carreguei meus netos.
Tive, sim, desilusões, enganos bobos.
Demorou até achar; achei minha bela.
Ela não morreu de amor, mas sempre soube que morreria amada.

Amo a solidão.
Já amei multidões, revoluções e rebeldias.
Era necessário amá-las; eu as amei.
Quase não consegui me amar.
Fiquei muito envolvido com os outros.
Foi complicado me envolver comigo mesmo.
O tempo e eu soubemos cuidar disso.

Fiquei velho; a morte já não parece distante.
Muitos ficaram destrambelhados depois de velhos.
Tenho medo de me tornar um desses.
Só sei que levarei para o chão o meu corpo.
Nem sei se um deus me levará consigo.
Ou um demônio...
Não acumulei riquezas.
Morrerei com dúvidas.
Não morrerei aflito.

QUERO SER PATRÍCIO
(6 de outubro de 1997)

Eu estava dormindo. Meu pai me acordou e disse: “O Patrício morreu, Lívio”.

Cresci ouvindo o Patrício. Havia uma canção-vinheta que citava o nome dele; eu gostava de ouvi-la. Acordam-me e eu me preparava para a aula ouvindo o Patrício, hábito que vinha antes dos tempos escolares. Muitas vezes, já em meio aos colegas, era comum alguém chegar e comentar algo que havia sido dito pelo Patrício.

Não consigo imaginar alguém de Patos de Minas que nunca tenha ao menos ouvido falar do Patrício. Os pais de meus pais ouviram o Patrício; meus pais ouviram o Patrício; eu e meus irmãos ouvimos o Patrício; o filho de meu irmão chegou a ouvir o Patrício.

Não tive muito contato com ele. Éramos colegas de serviço, mas não trabalhávamos no mesmo turno. A imagem que para mim vai ficar é a de um senhor de cabelos brancos, gestos e caminhar contidos e a voz familiar – familiar no sentido literal, pois a voz dele era de casa.

Quando eu apenas o ouvia, pensava em alguém de cabelos pretos, bastante barbudo e usando óculos escuros, numa dessas sempre errôneas imagens que fazemos da aparência dos locutores.

Cada um tem sua lembrança ou lembranças de Patrício. A de Aldo Fernandes Caixeta, um grande amigo, é curiosa. Quando ele me contou a história, eu soube no momento que ela já se tornara inesquecível.

Estávamos conversando sobre a infância, em especial sobre as respostas que dávamos quando alguém nos perguntava o que seríamos quando crescêssemos. Ele me disse que quando lhe perguntavam o que seria, ele respondia: “Quero ser patrício”, por achar que patrício era o nome do profissional que fala no rádio. Sabendo da morte do comunicador, imediatamente me lembrei dessa história. Ao comentar com o Aldo, ele também disse ter se lembrado.

Patrício se foi. Patrício é adjetivo sugestivo. O Aldo não estava de todo errado em querer ser patrício. Héron Patrício, um dos irmãos, é trovador, e é dele a trova seguinte:

“Tempo é moinho rangendo,/triturando a mocidade./Trigais de sonhos moendo/para meu pão de saudade!”

MADALENA
(14 de fevereiro de 1998)

Madalena nasceu na roça, lá foi criada. Morou lá até os sete. A mãe morreu, o pai era demais severo. Ela veio para a cidade, morava com tios. Estudou durante algum tempo, concluiu a sétima série. O que aprendeu, jamais esqueceria, mostrou desde cedo que era muito inteligente. Estudou música no colégio e se revelou uma cantora nata. Sabia lidar com palavras e tinha familiaridade com números.

Tudo na vida de Madalena vinha cedo demais. O trabalho também veio. Família pobre. O dinheiro era a conta para comprar o que comer. Muito cedo passou a se virar por conta própria. Logo se casou, o marido bebia muito. Começo complicado teve a vida do casal. Quase se separaram. Nem por isso o marido deixava de beber. Só abandonou o vício muito tempo depois, quando os dois primeiros filhos já estavam crescidos. Chamam-se Lúcia e Maurício. Foi complicado criá-los. Hoje, estão grandes. Cada um já seguiu seu caminho. O terceiro filho, Leonardo, está terminando o segundo grau.

Madalena envelheceu, é verdade. Mas quem a vê tem a impressão de que ela era muito bonita quando jovem. E não se enganam. Sempre magra, cabelos pretos, olhos castanhos, pele clara. Mede aproximadamente um metro e setenta. Reconhece que uma fase longa e complicada de sua vida ficou para trás. O marido não bebe mais, os filhos estão adultos. Ela sente que o período é tranquilo. Voltou a tocar violão, tem cantado e tocado em casamentos, em companhia de um dos irmãos. Não perdeu o senso de humor. Mesmo os vacilos que a saúde dá não a fazem abandonar a ironia e as tiradas. De vez em quando trabalha em casa. Foi costureira por muito tempo; às vezes volta a exercer o ofício.

Queixando-se de tédio, estava à procura de um livro. Escolheu um de Rainer Maria Rilke em que o poeta se corresponde com um iniciante no mundo das palavras. Depois, leu um de crônicas do Artur da Távola. Assim que terminou, leu “Cem Anos de Solidão”. A Bíblia também é outra leitura. Quando lhe dizem que não se deve acreditar em tudo que está na Bíblia, ela não discorda, mas diz que jamais achou um livro escrito de forma tão arrebatadora e apaixonada. E concluiu que gosta de ler a Bíblia para se emocionar com as palavras. Adora o “Sai de Baixo”.

Um dia, perguntei-lhe se se sentia feliz. Quando ela estava prestes a responder, eu lhe disse que a achava triste. Ela esboçou um sorriso. Disse então que eu não estava totalmente errado. E completou: “Mas a resposta para a sua pergunta é: “quase”.

MARIA DOS SANTOS SILVA
(28 de março de 1998)

Maria dos Santos Silva mora perto de minha casa. Desde quando eu era menino, nós temos passado um pelo outro, mas nunca havíamos nos falado. Dona Maria tem 71 anos, completos no dia primeiro de março. Hoje, é viúva. Foi casada com Benedito Hermenegildo da Silva. Ela não se lembra mais há quanto tempo se casou. Não se lembra mais há quanto tempo começou a vender pipoca em Patos de Minas.

O que me leva a escrever sobre dona Maria foi o que me disse o Giovane, um amigo, enquanto tomávamos uma cervejinha num bar. Ele me contara que ela havia recebido uma homenagem no dia oito de março. Fez a homenagem, uma associação de mulheres de Patos de Minas. O tributo foi um reconhecimento à dedicação de uma senhora que há décadas, com muita força, realiza seu trabalho. Antes de ele me contar a história da homenagem, eu não havia reparado na história dela.

Dona Maria prossegue incansável. Segundo Eduardo, um dos netos, “ela trabalha para se distrair”. Seja por que motivo for, ela continua. A próxima vez em que você passar pela esquina da Getúlio Vargas com Olegário Maciel, repare. A partir de aproximadamente quatro da tarde vai haver ali uma senhora baixa e de olhar triste, vendendo pipoca até mais ou menos dez da noite. Se ela não estiver lá nesse horário, é porque choveu ou então é porque ela foi à missa. Há mais de vinte anos pode ser vista trabalhando nesse mesmo lugar.

Ela e o marido trabalharam juntos. Ele ficava de um lado da esquina; ela, do outro. Além de pipoca, ele vendia quebra-queixo. Eu mesmo me lembro de comprar quebra-queixo dele, quando estudei no Polivalente; ele fazia ponto lá. O Giovane me contou que certa vez o senhor estava indo a um campo de futebol para vender lá seu famoso quebra-queixo. No caminho, estando de bicicleta, caiu. A molecada não perdoou, e logo cercou o senhor Benedito como abelhas zangadas. Quase levaram todo o quebra-queixo dele.

De acordo com o Eduardo, dona Maria não fatura mais de cinquenta reais por mês com suas pipocas. Ela tem de comprar óleo, tem de comprar milho. Quando perguntei para ela se alguém já saiu sem pagar, respondeu: “Ih! Muita gente”. Cada saquinho custa cinquenta centavos, e ela só vende pipoca com sal. O dia em que mais vende é na sexta-feira da Paixão, por causa da procissão.

Atualmente, mora com uma das filhas, também viúva. Hoje (11/3) à tardinha, enquanto eu voltava do trabalho, passei por dona Maria. Estava indo trabalhar.

ROSA
(24 de outubro de 1998)

Conheço Rosa há uns 10 anos. Melhor dizendo, convivo com Rosa há uns 10 anos. Vejo-a frequentemente, mas nossa conversação jamais passava dos tradicionais cumprimentos. Nós nos víamos, sem quase nada sabermos um do outro.

Há coisa de umas duas semanas precisei estar na sala onde Rosa trabalha, para também trabalhar. Cheguei e nos saudamos. Liguei o computador e comecei o trabalho, de costas para ela. Mesmo assim, iniciamos um bate-papo. Como eu tinha de me concentrar na tela, não prestava a devida atenção no que ela dizia. Num certo momento, eu lhe perguntei sobre seu pai. Ela me disse que o pai suicidara-se, após ter ido à falência.

Fiquei surpreso. Acrescentou que o pai suicidara-se, na opinião dela, pelo fato de não mais poder dar aos filhos o conforto que até então eles haviam tido. Disse que não julga o pai, e que desse período guarda etéreas lembranças, pois era uma criança na época.

Rosa continuou falando de sua família. Disse que um irmão de seu pai suicidara-se. Rosa continuou falando de sua família. Disse que um outro irmão de seu pai suicidara-se. Aquilo ia me surpreendendo, ia me revelando uma Rosa de que até então eu não fazia a menor ideia. Ela continuou falando de sua família. Disse que um irmão seu suicidara-se. Eu ficava constrangido em perguntar o porquê das tragédias, eu ficava sem saber o que dizer e ficava espantado por nunca ter visto nela as marcas de um passado morto. Rosa continuou falando de sua família. Disse que dois primos de sua mãe suicidaram-se. Rosa continuou falando de sua família. Disse que seu irmão havia sido assassinado há três anos, e até hoje não se sabe quem foi o assassino.

Tomei a liberdade de perguntá-la sobre sua mãe, e me disse que ela é viva, e que é extremamente humilde, muito doente. Parece ser frágil, mas Rosa não pensa assim. “Se decepção matasse, minha mãe não estaria viva”. A humildade a que ela se referiu é a forte característica de uma das irmãs de Rosa, que é nossa colega de trabalho.

Após a nossa conversa, fiquei pensando em Rosa. Lembro-me de que certa vez perguntei-lhe se ela estava namorando. Quando ela me deu uma resposta negativa, perguntei-lhe qual o motivo de ela não estar. Ela disse que era pela razão de não confiar mais nos homens. Lembrando-me desse dia, e considerando o que Rosa me disse sobre sua família, fiquei me perguntando se ela é uma pessoa amarga. Aparentemente, não. O enigma dela é bem maior do que eu suspeitava. A bem da verdade eu nem pensava nela como enigmática.

OBRIGADO, MINHA SENHORA
(14 de julho de 2000)

Suas mãos eram ásperas, tinham dedos grossos, assim modelados pelo trabalho na roça, que era nítido nela e naquele que certamente era seu marido. Os dois faziam um lanche numa padaria do centro. Ela usava um vestido azul, simples como tudo nela. Os cabelos brancos eram lisos e estavam presos.

Ela comia uma broa. O que me chamou a atenção na velha foi a extrema simplicidade. Para lanchar, não se valia de nenhum guardanapo. Segurava a broa com os dedos grossos da mão esquerda, enquanto ia colhendo os pedaços e os colocando na boca. Nenhuma convenção e, pareceu-me, alheia a tudo ali por perto. Cheguei a ficar com a sensação de que ela não estava à vontade em meio àquela barulheira, em meio àquela correria. Parecia pedir desculpas por estar ali. A padaria estava lotada, e nenhuma pessoa parecia reparar na velha da roça. Eu reparava pelo fato de ter gostado dela. Mesmo com toda essa “independência”, ela me parecia triste. Talvez cansada.

Era uma quarta-feira. Um dos balconistas parecia conhecer o marido dela. Mantinha com ele entusiasmado diálogo nos breves intervalos que tinha livre. Ela não olhava para nenhum deles nem para ninguém. Tinha a cabeça baixa, e ia pegando sem pressa os pedaços pequenos da broa.

Eu estava à sua direita, à mesa mais próxima. Quando a broa estava mais ou menos pela metade ela deu uma olhadela pelo ambiente. Não se deteve sobre nada. Olhando para o lado, encontrou meu olhar. Seu rosto não mudou aquela expressão triste e algo cansada. Em poucos segundos tirou de mim seu olhar e voltou a desfazer a broa.

Nada sei dela, a não ser essas impressões que relatei, e que podem estar erradas. O que importa é que ela me sensibilizou. Enquanto eu a observava amei nela toda uma vida que me pareceu dedicada ao trabalho. Ali estava uma senhora simples, comendo com maestria sua broa. Seu corpo era a consequência de uma vida que me pareceu difícil, cansativa. Amei nela a contribuição que ela deve ter dado para a vida daqueles que estiveram com ela; amei nela a contribuição que ela deve ter dado para que a vida prosseguisse em sintonia. Se a vida não der certo, não foi culpa dela.

Sempre de cabeça baixa, levantou-se, seguindo seu marido. Que vontade de dizer pra ela o quanto a admirei, o quanto ela me deixou inspirado. Ela se foi, meio curvada, pernas tortas...



OS ÔNIBUS



NO ÔNIBUS
(20 de outubro de 1995)

– Você está sempre nessa linha? – perguntou a esbelta garota ao trocador, após aguardar os passageiros atravessarem a roleta.
– Não, nem sempre.
– Amanhã você estará?
– Não. Quer dizer, acho que não.
– E em qual linha você estará amanhã?
– Deixe-me conferir... Sebastião Amorim/Rodoviária.
– Hum... E onde você costuma ir no fim de semana?
– Não tem lugar certo não – respondeu o trocador, já se interessando pelo interesse da morena esbelta de cabelos longos e lisos, de barriguinha de fora e trajando calça jeans justinha. – Por quê?
– Não, nada não. É que pensei que eu pudesse encontrar você por aí... Mas em qual horário você trabalha amanhã?
– Pela manhã.
– Pior que pela manhã eu estudo. Quando é que você volta a trabalhar nesta linha novamente?
– Não sei – respondeu o trocador, já delirando com o nítido interesse da garota. Sua cabeça fervilhava.

Aquele mulherão estaria dando bola pra ele? Não, não podia ser. Mas então por que ela não parava de lhe fazer perguntas? Com que interesse? E o que ele faria? Tentaria anotar seu telefone? Pegaria seu endereço? “Que sorriso lindo ela tem”. Ela não poderia escapar. Não mesmo. Se fosse preciso, ele tentaria trocar o horário com algum colega. Só para estar no outro dia no mesmo itinerário. Ele já pensava num convite. Cinema? Tomar sorvete? Um barzinho? Enquanto ele se debatia para verbalizar o turbilhão em sua cabeça, ela falou primeiro.

– Olha, moço, é o seguinte – disse a delicada voz. – Vou abrir o jogo: sei que a passagem custa trinta centavos, mas só tenho vinte e cinco. Se você me deixar passar, pode ter certeza que depois eu te dou os cinco centavos que estão faltando. É só você marcar o dia, hora e local que te entrego os cinco centavos, tá bom?

O trocador mal aguardou a garota se sentar para soltar uma gargalhada. Os passageiros olharam para ele como se perguntassem para si mesmos o que estaria se passando com o rapaz.

SEMPRE GOSTEI DE ANDAR DE ÔNIBUS
(2 de agosto de 1996)

Mesmo quando estão lotados. Desde criança sou assim. Lembro-me de que por volta dos quatro, cinco anos, os ônibus já me chamavam a atenção. À medida que o tempo ia passando, eu ia me “especializando” no ramo: reparava nos modelos das carrocerias, suas formas e cores; fazia comparações e prestava atenção no barulho dos motores; tentava identificar a marca dos ônibus pelo barulho que produziam. Estar num ônibus era uma outra viagem. Sempre foi assim, e hoje, o gosto por esses veículos ainda é mantido. Nosso planeta viaja pelo universo, os ônibus viajam pela Terra e, locomovendo-me num ônibus, viajo por esse pequeno planeta sobre rodas, motorizado.

Lembro-me de que era finzinho de tarde; o Sol estava quase se pondo. Entrei no ônibus. Enquanto cruzava a roleta percebi loiros e lisos cabelos embelezando as costas de alguém sentado à janela. Decidi sentar-me também à janela, no mesmo alinhamento, de modo que havia entre nós dois assentos e o corredor. Fingindo nem percebê-la, eu fazia de conta que olhava diagonalmente, para assim inseri-la em meu campo de visão, na esperança de flagrar um olhar dela em minha direção. Ela olhava pela janela. Enquanto o ônibus seguia, me arrependi por não estar exatamente a seu lado. Já que o ônibus estava praticamente vazio, ela deve ter percebido logo que o fato de eu estar naquele assento não era coisa do destino nem obra do acaso. Ela sabia que eu sabia que ela sabia ser ela o motivo de eu estar onde estava. Em meio a esses pensamentos, decidi não mais lamentar minha falta de audácia.

Como na desordem de nossas mentes muito pensamento cabe, ainda sobrava espaço para, a cada parada, torcer para que ela não se fosse. Ela se levantou; pouco depois o ônibus parou. Ela desceu, e enquanto caminhava, eu a observava. O ônibus arrancou, e quando passou por ela, pude vê-la olhar para mim e sorrir lindamente, enquanto mexia nos cabelos. Nunca mais a vi.

OUTRA VEZ, NO ÔNIBUS
(9 de maio de 1998)

Entre 17h30 e 18h. Finalzinho de tarde quente demais. Quando entrei no ônibus, ele já estava cheio. Passei pela roleta e fui para a parte da frente, esgueirando-me pelas brechas. Achando um lugar ideal, eu me mantinha distraído. Quando o ônibus chegou à parada seguinte, o cobrador já começara a pedir aos passageiros para dar um passinho para a frente. Esses passinhos trouxeram uma morena alta, cabelos encaracolados, usando minissaia curtíssima, feita de um pano espesso que esticava. A camiseta branca era cavada.

Figura delgada, toda atraente. O andar do ônibus trouxe mais uma parada. Um cara todo cheio de ginga, mascando chiclete, apareceu. Foi logo começando a falar palavrões para a morena. Só que minha distração era tanta; demorei a perceber que o que ele estava dizendo era para ser ouvido por ela. Só comecei a prestar atenção no sujeito quando percebi trocas de olhares entre os passageiros que estavam por perto. Uma senhora fazia uma cara indignada; um senhor, portando uma maleta, sorria; outro passageiro mais jovem encarava o falastrão com expressão austera. Foi essa trama que me fez perceber que o garotão estava no comando do show.

A vida prosseguia. Às vezes, rápida; às vezes, com solavancos e sustos; pouco depois, uma parada repentina... Assim íamos sendo levados. A morena esbelta parecia estar toda sem jeito. Sestroso, o conquistador se aproxima dela mais ainda, valendo-se dos tradicionais passinhos para frente a que nós, passageiros de ônibus, estamos acostumados. Desvairado de vez, ele passou a mão na bunda dela. Os que estavam por perto entreolharam-se e olharam para a garota e para o rapaz. Ele deve ter uns 26 anos; ela, uns 19.

Recebendo um olhar irritado dela, sentiu-se ele à vontade. Novamente passou a mão nela. Calada, virou-se de modo que parecia disposta a tentar se defender, caso um novo ataque fosse empreendido. De minha parte, pensei até em me intrometer, passando-me por namorado dela. Mas isso deveria ter sido feito logo quando ele começou a falar os palavrões. Pensei também em dizer que se ele continuasse eu daria um murro na cara dele. Mas rapidamente abandonei essas ideias. Eu não queria comprar briga nem apanhar.

Quando a morena se preparava para descer, quem foi junto?... Ele mesmo, o masca-chiclete de camisa toda desabotoada. Ela, preparada para descer; ele, encostado nela. Ela desceu. Ele também. Mais dois passageiros abandonaram o ônibus. A morena caminhou. Ele foi atrás e lhe disse algo. Ela parou e conversou com quem parecia ser uma amiga. Ele, antes de prosseguir, aproximou-se do ouvido dela, falou algo e foi embora, assim como o ônibus.

ÔNIBUS
(18 de julho de 1998)

Quem tem mesmo razão nessa história toda é o Lobo Mauro, codinome apropriadamente criado pelo Manoel Almeida. Para o Grande Lobo, escrevo tantas crônicas cujas histórias se passam dentro dos coletivos porque simplesmente não tenho dinheiro. Se tivesse, o ambiente de minhas histórias seria outro. Certamente, seria um carro zero. Nele, a trama seria material para texto. Está certo, o Maurão. Olhemos, pois.

Calção marrom e camiseta branca. Ele é moreno, estava todo sujo naquele momento. Três anos? Quatro? Quando me sentei nem reparei nele. Usava chinelos e estava com os cabelos desgrenhados. Depois, percebi um pedaço de pão na mão direita.

Pensando na prova que faria, preocupado, eu via as coisas mas não as olhava. Numa das curvas, ele se encostou a mim. Saí de minhas preocupações e vi que o garoto havia adormecido. Olhei em torno e tentei localizar aquela que poderia ser a mãe dele, mas não tive a impressão de achá-la. Tentei então me mexer o menos que podia. O sono dele era comovente e não merecia mesmo ser acordado. Quando a curva era à esquerda, ele se chegava mais; quando era à direita, quase ia para o outro lado. Mas esse balanço não o acordava. Nem o pão caía da mão.

Comecei a me preocupar com a hora de deixar a nave. Para que eu me levantasse, ele teria de ser acordado – e isso eu não queria. Uma passageira que viajava em pé demonstrou curiosidade ao ver o garoto. Eu já contava quantas paradas faltavam para chegar minha vez de descer. Ele continuava dormindo, alheio e alhures. O pão foi abandonado. Caiu no meu colo. Mais duas paradas e minha vez de caminhar chegaria.

Veio o momento. O motorista fez a máquina parar e abriu a porta. Enquanto os outros estudantes começaram a descer, eu ia tentando sair do assento o mais sutilmente. Não podia demorar nem queria atrapalhar a criança. Apoiando-o com o braço esquerdo, consegui sair do banco. Ele esboçou um despertar. Quando consegui deitá-lo, pensei que ele fosse acordar. Mexeu-se e se manteve de olhos fechados. Coloquei o pão sobre seu peito e temi as possibilidades de o alimento ou o garoto rolarem, ou de uma freada mais brusca os jogar no piso. Deixei o garoto como ele estava. Foi quando vi uma senhora morena no banco de trás. Tinha tudo para ser a mãe dele; mesmo assim, saí preocupado com aquele anjo que dormia como um menino.

NÍVEA FERREIRA DE SOUSA
(2 de outubro de 1999)

Faltavam 15 minutos para o término do quinto horário. Saí da sala mais cedo, de olho numa carona. Fui para o vão que dá acesso para a saída do prédio e fiquei aguardando. Uns dois minutos se passaram e ela veio. Perto de mim, e olhando para fora, disse que não podia acreditar que perderia o ônibus, que acabara de chegar à parada. Fez cara de descrença e ficou sem caminhar durante alguns segundos. Subitamente, sem nada dizer, começou a correr.

Não sei quantos metros há da entrada da Fafipa até o ponto de ônibus em frente à faculdade. Só sei que quando ela começou a correr, pensei: “Ih. Não vai dar tempo”. Eu torcia por ela, mas achava pouco provável que ela chegaria a tempo para tomar o ônibus que descia rumo ao centro. Enquanto o veículo ia colhendo aqueles que já estavam no ponto, ela corria. Bela atitude, a dela. Enquanto corria, eu olhava ora para o ônibus ora para ela. Admirei-a. Eu não teria pique nem para iniciar a corrida. Por diversas vezes, tendo de percorrer uma distância bem menor, deixei o ônibus partir sem mim. Ela não se perguntou se daria tempo. Correu. “Simplesmente” correu. Sabiamente correu. Correu o risco.

Talvez o que a levou a correr tenha sido uma necessidade maior; talvez tenha sido o medo de chegar mais tarde em casa, pelo medo de ter de passar a pé num trecho qualquer; talvez seja apenas a vontade de ir para a cama mais cedo. Ela corria, parecia correr cada vez mais. O ônibus parado. Ela corria. O ônibus não arrancava. Eu, na entrada do prédio, continuava a observando. Num foco, sua disparada; noutro, o ônibus. Eu pensava comigo que mesmo se houvesse muita gente no ponto não haveria jeito de ela chegar a tempo: havia o trânsito nas pistas duplas da Major Gote, o que poderia vir a atrasá-la.

O ônibus parado. Ela já se aproximava do portão da faculdade. O ônibus aguardava. Ela chegou à Major Gote. Pausa – não pelo cansaço, creio –, mas para conferir o trânsito. O ônibus nem se mexia. O trânsito a reteve por alguns segundos, enquanto os passageiros impediam a partida da condução. Livre, ela correu mais. Pude vê-la até o momento em que cruzava a segunda metade da rua. A partir de então meu ângulo de visão foi impedido – não me lembro se pelo movimento do local ou se pela posição que eu ocupava. Havia mais alguns metros a serem percorridos.

Ah se soubéssemos que ela nem precisava ter corrido tanto.

PARE O ÔNIBUS!
(29 de março de 2008)

Uma chuva inclemente e poderosa desabava sobre Patos de Minas. Ventava muito. O barulho das águas sobre a estrutura de metal da rodoviária parecia aumentar a intensidade do que já era portentoso.

O ônibus partiria em minutos. Como sempre fui afoito, estava adiantado quarenta e cinco minutos para o embarque, mesmo com a passagem comprada há dias. Assim que cheguei à rodoviária, a chuva começou.

Seria minha primeira viagem para São Paulo. O ônibus estaciona na plataforma. Sempre inquieto, vou logo me aproximando da porta do veículo. Aguardo alguns minutos; ocupo a poltrona de número três. Foi dada a partida. Após manobras, o veículo parte.

No exato momento em que o motorista deixa as dependências da rodoviária, mal pegando a avenida Piauí, um homem vindo lá da parte de trás do ônibus começou a gritar, suplicando ao condutor que parasse. Houve medo, risadinhas, susto. Não fazia sentido, debaixo de um pé-d’água daqueles, alguém pedir para que o ônibus parasse, ainda mais que havia acabado de embarcar. Indo rápido pelo corredor e gritando sempre, o homem, de uns trinta anos, chegou a causar falta de ar numa senhora que estava numa poltrona perto da minha.

Burburinhos, cochichos... Quando chegou até a divisória entre o motorista e os passageiros, o homem tentou logo abri-la. Talvez por estar afobado demais, não conseguiu. Com as mãos, ao mesmo tempo em que insistia no apelo para que o ônibus parasse, batia forte no vidro; as cortinas da divisória não deixavam que se visse o outro lado. Assustado, o auxiliar de viagem abriu a portinhola.

– Pare o ônibus.
– Não posso, meu senhor. Além do mais, cai um dilúvio lá fora.
– Não importa. Preciso descer.
O passageiro estava impaciente, ofegante, gesticulava muito, falava alto.
– Meu senhor, não tenho autorização, não posso parar aqui. O senhor tem bagagem?
– Tenho.
– Não tem como pegar sua bagagem debaixo dessa chuva toda.

O clima era de apreensão.

– Eu largo a bagagem. Preciso descer. Minha mulher tinha brigado comigo e me mandou embora. Mas mudou de ideia.
– Ela ligou pro senhor?
– Não! Ela está lá fora, debaixo de chuva, correndo atrás do ônibus na bicicleta dela.

Enquanto falava, o passageiro olhava com insistência para fora. O ônibus estava parado no semáforo da Piauí com a Barão do Rio Branco. Conversa daqui, conversa dali... Após consulta com o motorista, o auxiliar diz ao passageiro:

– Vamos parar num posto logo ali.

O passageiro vai lá atrás. Na volta, traz uma pequena mochila. O ônibus estaciona nas dependências do posto. O homem agradece rápido ao motorista e ao auxiliar. Veloz, corre direto para a mulher, que estacionara a bicicleta perto de uma bomba de gasolina. Quando se abraçaram, houve, dentro do ônibus, algumas palmas.



AS BICICLETAS




VIDA DE BICICLETA
(22 de setembro de 1995)

Tenho percebido que constantemente uma bicicleta aparece aqui ou ali em minhas crônicas. Não como protagonista. Aparece discreta, porém frequentemente. Tão frequentemente que me dei conta de que a bicicleta é parte importante de meu mundo. O tempo passa e continuo pedalando.

Fui acordado às nove horas. Era uma manhã de segunda-feira. Devido a um imprevisto, eu teria de sair da cama e de casa bem mais cedo do que havia planejado. Sonolento, me organizei para sair. Ao abrir a porta, percebi o tempo nublado. Pensei alguns instantes se levaria um guarda-chuva. Não levei. Antes mesmo de eu caminhar até a esquina mais próxima, grossos pingos surgiram. Voltei correndo para casa, destranquei rápido o portão, entrei em casa, apanhei o guarda-chuva. No momento em que trancava novamente a porta, minha mãe chegou. Como eu estava com pressa, pedi a ela que me emprestasse a bicicleta. Saí sob a chuva que gradativamente ia se tornando mais forte. Ventava muito, tornando-se assim difícil segurar o guarda-chuva em meio ao vento e à água. Por causa da ventania, tive de segurá-lo de modo que ele impedia consideravelmente minha visão. Eu só enxergava o que estava a mais ou menos dois metros.

Passei a achar interessante a ocasião, apesar de todo o desconforto. Eu seguia pela av. Paranaíba, conhecia bem o trajeto, mas naquela hora eu não podia divisar nem o que havia nos próximos metros. Assim eu pedalava, quando então pensei que a vida era como andar de bicicleta e ter a visão obstruída. Eu me locomovia e não sabia o que me trariam os próximos metros. Vive-se sem a noção do que poderá ocorrer nos próximos minutos. Fui me entusiasmando com a ideia e até havia me esquecido da dificuldade que era manter na mão o guarda-chuva. Pedalava, pedalava e a vida ia se fazendo, me revelando o que havia no caminho.

Curiosamente, quando cheguei a meu destino, parou de chover. Ao voltar para casa, sem chuva, eu podia enxergar o caminho, prestar atenção nele. Foi preciso um pouco menos para que eu viesse a enxergar um pouco mais. E mesmo enxergando um pouco mais, eu continuava a sentir a vida como quem anda de bicicleta sob a chuva com vento forte.

UM SONHO DE BICICLETA
(18 de outubro de 1996)

Sempre achei que andar de bicicleta fosse um feito. Por ter se tornado comum, não lhe damos atenção. Aprender a andar de bicicleta é considerado trivial, pois quase todo mundo aprende. (Equilibrar-se em apenas uma roda, com a evolução da espécie, vai se tornar a regra.)

Lembro-me de que, na infância, eu sonhava estar andando de bicicleta. De um desses sonhos me lembro como se fosse agora. Lembro-me da rua, da bicicleta que me fazia sonhar. Era como se eu estivesse com os pés fora do chão, flutuando sobre a Olegário Maciel, entre a Ouro Preto e a Vereador João Pacheco. Eu me equilibrava, pedalava e desejava ficar sempre assim. Quando acordei, voltei a sonhar que eu podia andar de bicicleta.

O sonho que se sonha quando se dorme nos parece bem mais real que aquele que se sonha enquanto se está desperto. Por isso, uma vez sonhado que estava dominando uma bicicleta, ficara decidido que eu não sossegaria até aprender essa arte.

Do primeiro dia não me esqueço. Afinal, eu estava numa idade em que meus colegas de sala já tentavam andar numa roda só. Foi de supetão. Eu disse que aprenderia e pronto. Numa manhã ensolarada, me deram o primeiro empurrão. Após cuidadosas preliminares, eu me vi montado na bicicleta de minha mãe, conduzindo-a como eu sempre quisera. Mais um sonho tornava-se fato, e daquela vez havia sido um sonho meu, acalentado há muito tempo. Havia chegado então a minha vez, cheia de ziguezagues, tremores, vacilos. Eu não ousava olhar para trás; nem para os lados eu olhava, bem como não arranjava um jeito de dar meia volta e volver. Só o que servia era seguir. Não me preocupava na ocasião com manobras que me tirariam daquele sonho que era conseguir me equilibrar sobre duas rodas, e assim sair por aí.

Quando parei, recordo-me bem, nem estava tão longe do ponto de partida quanto pensara. Voltei empurrando a bicicleta, ansioso para receber mais um empurrãozinho, o que não me foi negado. E tudo foi tão bom, que numa decisão típica de quem não sabe mesmo o que está fazendo, me afastei de casa, e fui me afastando mais e mais, entusiasmado por já conseguir fazer curvas. Nas esquinas, caso fosse preciso parar, eu me veria encrencado, por não saber se conseguiria arrancar. Mas isso não importava, e para coroar meu ato inconsequente, uma prima passou por mim, também de bicicleta, e se mostrou surpresa por me ver às voltas com uma. Foi um contentamento só dizer pra ela que aquelas eram minhas primeiras pedaladas.

Soltou-se a corrente. Pedi a alguém para arrumá-la. Depois, pela primeira vez, consegui arrancar sem empurrão.



AS ESCOLAS



UM INCIDENTE
(3 de novembro de 1995)

A aula transcorria quase normalmente, pois o barulho era imenso. A maioria dos alunos estava conversando, sem interesse pelo professor, pela matéria ou seja lá o que for. Para os poucos que pareciam interessados, eu prosseguia com as explicações. O ambiente continuava ruidoso. Uma aluna pediu-me:

– Você deveria falar um pouco mais alto.

Àquela altura, já desgastado e impaciente, devido à algazarra dos alunos, retruquei:

– Vocês é que deveriam conversar menos.

Ela revidou:

– Mas eu não estou conversando.

E não estava mesmo. Ela tinha razão. Nada mais não dissemos um para o outro, e a partir de então uma atmosfera pesada tomou conta da sala de aula. Havia uma tensão pairando, mal aguardei o horário terminar. Saí sem me despedir dos alunos.

Durante o período em que não lecionei para a mencionada turma, eu e a aluna que havia me pedido para falar mais alto nos encontramos diversas vezes nos corredores da escola. Nada falávamos um com o outro e desviávamos nossos olhares.

Para ser sincero, eu não estava disposto a enfrentar novamente toda aquela baderna. Na semana seguinte ao incidente, entrei apreensivo em sala de aula. Para minha surpresa (e alívio), havia poucos alunos em sala. Tudo transcorreu sem problemas. Não mais tive desentendimentos com a turma desde então. Num dia, ela (a aluna), se propôs a resolver uma questão no quadro. Em troca da solução correta ela me pedira dois pontos. Topei. Ela ganhou os pontos. Após o término da aula pensei ser isso um bom sinal. Afinal, havíamos mantido diálogo novamente. Um diálogo amistoso.

Há alguns dias cheguei a um barzinho. Lá estava a aluna dos dois pontos. Foi logo me chamando, sorridente. Disse-me que há um tempão estava com um recado de um amigo meu para ser transmitido a mim. Iniciamos uma conversação, tomamos cerveja, descobrimos outras amizades em comum e iniciamos a nossa.

O MUNDO DÁ VOLTAS
(16 de agosto de 1996)

Lembro-me muito bem. Era uma noite de sábado. A primeira vez em que a vi foi numa festa. Ela chegou; alta, morena. Passou pela soleira e tropeçou no tapete. Pareceu-me que cairia, mas não caiu. Ao se recompor, seus olhos depararam os meus. Senti-me aliviado pelo fato de ela não ter caído, e ela, como que percebendo meu alívio, sorriu timidamente.

Por falar em timidez, logo logo tive a impressão de que essa era uma das principais características da garota. Falava pouco, gestos contidos. Num determinado momento da festa, estando ela a conversar com uma amiga minha, aproximei-me das duas, criando então a primeira oportunidade de falar com ela, o que foi muito aprazível. Como ela não estava bebendo nada, ofereci-lhe cerveja. Recusou, pedindo-me para buscar refrigerante. Ao voltar, mais uma pessoa já havia se integrado à rodinha. Em um instante, e já éramos seis. Decidi dar um giro pela casa, mas ainda me sentindo atraído por ela.

A festa prosseguia animada, e eu pensando na garota. Cercado de pessoas, bebidas e comidas, eu ia meditando uma maneira de manter contato com ela numa outra ocasião. A possibilidade de acompanhá-la até sua casa era remota. Ela poderia morar muito longe; não tenho carro nem moto. De vez em quando nossos olhares se encontravam. Esperançosamente eu tentava perceber em seu olhar castanho-claro algum possível interesse dela por mim. O tempo passava e comecei a temer que a qualquer momento ela poderia ir embora. Eu tinha de dar-lhe o número de meu telefone, ou mesmo conseguir o dela, quem sabe. Teria de me reaproximar, torcer para que ficássemos algum tempo conversando sem que nova rodinha se formasse. Peguei papel e caneta; quando ia já escrevendo meu nome e número de meu telefone, tive a ideia de escrever para ela um poema. Escrevi, assinei, deixei o número no papel e o coloquei no bolso da camisa. Em dois ou três minutos reaproximei-me e entreguei-lhe o pedaço de papel dobrado. Ela não me ligou, situação que lamentei duplamente: nem eu nem o poema fomos o bastante para convencê-la a ligar. Uma pena. Afinal, eu o achara bem-escrito, e dele não tenho cópia.

Voltando às aulas, entrei animado na sala. Comecinho do ano letivo. Hoje ela é minha aluna.

DA PAZ
(25 de outubro de 1996)

Em 1987 lecionei pela primeira vez. Foi em Carmo do Paranaíba. Lá, trabalhei durante um ano. Fiquei algum tempo parado e depois lecionei novamente, dessa vez aqui em Patos de Minas. Novamente parei. No ano passado, a partir de agosto, voltei a lecionar. E assim tem sido desde então.

Frequentemente penso que as histórias ocorridas em sala de aula são material farto. As sutilezas, os olhares, as desavenças, as dúvidas ou as explicações. Qualquer aula de cinquenta minutos em qualquer escola daria um livro.

Há algum tempo fiz com que uma história ocorrida em sala de aula virasse crônica. Escrevi na ocasião sobre um desentendimento entre uma aluna e mim. Passou-se o tempo e novamente uma história ocorrida numa sala de aula tem convivido comigo. De duas semanas para cá, nela tenho pensado com frequência, a ponto de contá-la agora.

Era o terceiro horário. Explicada a matéria, e ainda faltando cinco ou sete minutos para bater o sinal, ficamos, eu e os alunos, a conversar sobre amenidades. Eu conversava um pouquinho com um, um pouquinho com outro, e o tempo ia passando. Impacientes, eles me pediam a todo instante para que eu os liberasse, pois queriam entrar na fila do barzinho antes de se iniciar o recreio. Até hoje não parecem convencidos de que o fato de eu não liberá-los não é uma escolha minha: estou cumprindo ordens. Quando os mais afoitos já estavam de pé à porta, prontos para pegar a fila, bateu o sinal.

Peguei meu material; quando já ia me dirigindo rumo à porta, uma aluna aproximou-se timidamente. Aluna discreta, dessas que ficamos toda uma aula sem conhecer a cor de sua voz. (Não me lembro se ela tira notas boas, mas sei que em sala de aula ela fala muito pouco.) Ela se aproximou e me perguntou num tom suave se eu me lembrava de certa vez ter dito em sala de aula que eu não conhecia ninguém normal ou que tivesse paz. Surpreso, respondi que me lembrava de já ter dito algo mais ou menos assim, e confirmei que eu não me lembrava do contexto em que fizera tal afirmação. Ela, muito sem jeito, disse-me que jamais conhecera alguém normal, mas que paz ela tem.

Fiquei surpreso, muito surpreso. Ela demorou para me falar da paz que sente, e sobre isso conversamos durante o recreio. Aquela garota tímida e discreta me surpreendeu com sua inteligência, maturidade e... paz. E posso estar errado, mas ela parecia querer me ajudar. E ajudou. Resta-me desejar a ela o bem, desejar a ela sabedoria. Que a paz seja com ela.

E vou passar a observá-la em sala de aula.

A QUINTA SÉRIE
(18 de agosto de 1997)

Pantagruélico como sempre, ele sentou-se à mesa para mais uma refeição. Os pensamentos de Estevão Machado eram entusiasmados naquela ocasião. Tremendamente aliviado, ele se sentia mais apto, mais gente, mais professor.

Sempre lecionara para o segundo grau. Escolha própria. Sempre que lhe ofereciam aulas no primeiro grau, ele recusava, por achar que não teria tato para lidar com os pentelhos. Quando lhe disseram que o único jeito seria dar aulas para a quinta série, Estevão sentiu um temor ao se imaginar falando para um bando de crianças peraltas, como ele havia sido. Sentiu desânimo, e só não disse não por saber que a outra possível saída seria pedir demissão.

Em casa, ele pensou em ligar para alguém que já lecionara para o primeiro grau, mas mudou de ideia; pensou que procedimento poderia ser adotado, imaginou-se sendo perscrutado pelas crianças, incomodado pela agitação habitual delas; pensou na estranheza que elas sentiriam, por estar acostumadas com uma professora. Teorizou, teorizou e quando se deu conta, já era hora de partir em direção à sala 5, dedicada aos alunos da quinta série. Partiu e tentou impor a si um ar de confiança, de quem sabe o que faz. Faltando uns vinte ou trinta metros para estar à porta da sala, e ele já podia ouvir a trivial vozeria aguda dos estudantes.

Ao cruzar a soleira, houve uma petrificação no ambiente. Elas se calaram automaticamente e o acompanharam atravessar o recinto. Estevão, ainda sem encarar os alunos, colocou sua pasta sobre a mesa, escreveu seu nome no canto superior esquerdo do quadro, embaixo escreveu que matéria lecionaria, virou-se de frente e lhes desejou bom dia.

O bom-dia deles foi lânguido, não combinando com a vitalidade que eles irradiavam momentos atrás. Disse-lhes que teria de copiar muita coisa no quadro, pois o material não havia chegado ainda. Pediu a eles que copiassem. A matéria seria explicada em seguida.

Para surpresa dele, os alunos o trataram amistosamente, sentiram-se à vontade para fazer perguntas e para atrapalhar a aula. A sensação que ficou em Estevão foi a de que eles se conheciam há muito. Até ele se sentiu mais à vontade, coisa que no segundo grau não ocorria. Passados os cinquenta minutos, ele se viu gostando da diabada e se sentindo como um deles.

SALVO PELA REFRAÇÃO
(7 de fevereiro de 1998)

Quando eu cursava o primário do Frei Leopoldo, na época em que a escola ficava na Minas Gerais, esquina com avenida Brasil, a luz do Sol passava pela janela e chegava até minha carteira. Eu pegava então uma caneta e fazia a luz passar por ela, criando um pedacinho de arco-íris sobre a escrivaninha da escola. Eu girava a caneta, mudava-a de posição; às vezes, pegava duas, tentando misturar as belas cores. Não me lembro bem se foi no primário ou se foi quando eu já estudava no Polivalente. Mas sei que de algum modo ficou em minha cabeça que aquele fenômeno estava ligado ao que já é conhecido como refração.

Neófito em vestibulares, decidi tentar a aprovação em janeiro deste ano, aqui em Patos de Minas. Cheio de despreparo, cheguei pela manhã à faculdade. O primeiro dia de prova seria para mim decisivo. Provas de língua portuguesa, de literatura brasileira e de redação. Provavelmente por isso, um certo nervosismo senti. Eu sabia que não me sairia bem nas provas de matemática, de física, de história, de geografia, de biologia e de química, por não ter feito nenhum cursinho e por tê-las estudado apenas no primeiro ano do segundo grau. A partir do segundo ano eu estudaria, em grande parte, somente as matérias que diziam respeito ao curso. Após interrupções, recebi o diploma de técnico em edificações no ano de 1993.

Como esperado, fui mal na prova de matemática. Mas na de física, fui pior. Tirando zero em qualquer matéria, eu estaria fora do páreo. Parti então para a duvidosa atitude de marcar apenas a mesma letra em todas as questões, tentando fugir do “zeramento” de uma forma execranda. Só que da prova de física, encasquetei que conseguiria resolver algumas questões. Uma delas, a seguinte: “Um raio de luz ao atravessar um prisma de vidro, sai em uma direção diferente daquela que tinha ao atingir o prisma porque sofre...”. Marquei a letra d: refração. Fiz essa escolha por me lembrar da luz que entrava pela janela da escola e passava pela caneta. A verdade é que as cores do arco-íris eram então criadas pela dispersão, como bem me explicou o professor Geraldo de Arvelos. Mas eu me lembrava de um dia ter aprendido que a refração fazia parte de toda aquela beleza.

Errei todas as demais questões da prova de física. Fui aprovado por um raio de luz. Viva o precursor Newton! Viva a física! Viva a luz! Salvo pela refração, descobri os encantos da dispersão.

FAZENDO ESCOLA
(29 de agosto de 1998)

Recentemente, voltei a estudar. Meu desempenho acadêmico nunca foi brilhante nem constante. Fiz o primário no Frei Leopoldo. Logo no primeiro ano tomei conhecimento do que era uma falta de média. Nas demais séries do primário, meu boletim só teve notas azuis.

Quando eu estava prestes a cursar a quinta série, fiz a prova de seleção no Zama Maciel. Fui reprovado e chorei, pois fiquei com medo de não conseguir um lugar para estudar. Fui aceito no Polivalente, e lá fiquei até concluir o quarto ano do segundo grau. Formei-me em edificações, mais um dos cursos que estão sendo banidos pelo governo.

Na quinta série, fui um péssimo aluno. Cabulava muito as aulas, não estudava, não copiava matéria, não prestava atenção. Peguei recuperação em geografia. Fui aprovado. Na sexta, melhorei um pouco, mas as notas vermelhas não me abandonaram totalmente. Passei direto. Na sétima, estudei à noite. De forma apertada, passei direto. Na oitava, fui bom aluno. Voltei para o turno da manhã e, mirando-me no exemplo de vários colegas de sala, que eram famosos na escola por seu desempenho, decidi levar a sério os estudos. Obtive notas ótimas.

Mas a turma foi debandada. Alguns foram para outras escolas; outros, mesmo não tendo deixado o Polivalente, escolheram outros cursos. Veio o primeiro ano e novamente me distanciei da sala de aula. Notas vermelhas e recuperações seriam frequentes até o terceiro ano. Quando comecei a cursar o quarto ano do curso de edificações, o abandonei. Fiquei mais um ano longe e voltei. Fiquei até o mês de setembro e fui embora de novo. Fiquei mais um ano parado e voltei. Terminei o curso. No quarto ano, fui um ótimo aluno.

Terminado o segundo grau, fiquei mais um tempão sem estudar. Desde os onze anos eu vinha estudando inglês. Lecionei o idioma durante um ano numa escola em Carmo do Paranaíba, enquanto ainda cursava o segundo grau. Posteriormente, eu lecionaria num colégio em Patos de Minas, pouco depois de terminar o quarto ano. Felizmente, encher o saco de professor nunca foi meu forte.

Sinto às vezes uma certa dificuldade em me entrosar com os colegas de faculdade. Tenho vinte e sete. Muitos deles não completaram vinte. A sensação de que estou ficando velho vem se insinuando quase que diariamente. Ainda bem que a sensação de que perdi tempo não vem junto. Não ter havido escola não significa não ter havido vida cerebral. Não perdi tempo, mas envelheci.

A SAUDADE DE CLÁUDIA REGINA
(5 de dezembro de 1998)

Não sei há quanto tempo conheço Cláudia Regina, mas desde que a conheço a vejo às voltas com livros e com seu senso de humor. Eu já disse pra ela que esse senso de humor deveria ser usado para ganhar dinheiro. Geralmente, quando digo isso, ela vem sempre com uma de suas tiradas.

Raramente escrevo textos sob encomenda. Um dos poucos, talvez o único, foi um texto que publiquei neste jornal, sobre o dia dos pais. Tenho agora a tarefa de escrever sobre um assunto que me foi encomendado pela Cláudia, e estou com a sensação de que o texto pode não agradá-la, mas vamos lá.

Cláudia e eu estávamos aproveitando o tempo disponível para dar um giro pela faculdade. Assim que nos encontramos, ela me pediu para escrever uma crônica sobre a saudade que ela já estava sentindo do curso de Letras. Ela disse que às vezes tenta se refugiar desse sentimento, indo a lugares onde ele poderia cutucar menos. Embora eu não esteja me formando, penso ter uma ideia do que anda tomando conta de Cláudia. Eu, quando terminei o segundo grau, senti algo parecido. Tenho a impressão de que o que se passa com ela é aquela sensação que toma conta da gente quando estamos perto do fim de algo que foi tão bom, sem que nos déssemos conta. Nessas horas até nos esquecemos dos problemas que existiram, e percebemos que gostávamos muito mais da turma, da escola e dos professores do que suspeitávamos. Nesses momentos vemos morrer instante após instante um tempo que nos tornava felizes. A emoção é o que passa a ditar as ordens. Seduzidos por ela, sobra para nós um misto de dever cumprido e saudade.

A gente se lembra dos colegas e não raro um leve sorriso aflora. Até nos damos conta do quanto fomos intransigentes, pouco gentis ou desrespeitosos. Toda raiva vai embora, todo rancor se dissolve. Pode ser que isso não ocorra com todo mundo, mas creio ser isso o que se passa com a Cláudia.

Lembramo-nos das coisas engraçadas, dos apertos, daquela professora que era um saco, e nos damos conta de que todos escrevemos uma história, e que um dos capítulos está se fechando. Enquanto durou, um só encontro, uma só trama.

Não há como se refugiar da saudade, Cláudia. E valorize o encontro, pois o reencontro vem por aí.

DIA DE PROVA
(9 de outubro de 1999)

Minha capacidade de concentração nunca foi fenomenal, mas não é das piores. Nunca tive problema para estudar ouvindo música ou ler uma apostila dentro de um ônibus. Até um dia desses eu achava que barulho não me atrapalhava mesmo a me concentrar num estudo ou na feitura de uma prova. Engano.

Era uma noite de quarta. Noite quente, sem vento nem brisa. A sala estava lotada e a prova era trabalhosa, longa, exigia que se escrevesse muito. Comecei a responder as questões. Um barulho ou outro, como é comum, acontecia. De vez em quando alguém batia na porta da sala, causando a reclamação de alguns. Por mim, tudo bem. Entre um barulhinho e outro, nada demais. Os papéis em que a prova foi impressa produziam seu ruído típico quando manejados. Daqueles que estavam mais perto eu podia escutar a borracha sendo usada. Tudo parecia ser mais um trivial dia de prova.

De modo incomum, o professor me pediu para sentar no fundo da sala. Fui. Nem a primeira questão da prova havia sido resolvida, comecei a ouvir um barulho. Vinha de um colega que estava na fileira a meu lado, a minha direita. Era o barulho de uma embalagem que parecia ser de plástico. A embalagem estava no bolso dele. Em espaços compassados ele, com a mão esquerda, ia até o bolso esquerdo da camisa, pegava algo lá dentro – momento em que fazia o barulho – e colocava qualquer coisa na boca. Pensei se tratar de amendoim, depois pensei que pudesse ser algum tipo de bala... De qualquer modo, já que o barulho estava me incomodando, atrapalhando-me, decidi tentar relaxar, na crença de que em pouco tempo as balas ou sei lá o quê acabariam. Ilusão.

Eu já não sabia mais o que fazer. Ele movia a mão, colocava-a no bolso (argh!), remexia e retirava o produto. O que pensei que duraria alguns minutos não acabava mais. Quando eu percebia que ele estava mastigando, aproveitava para tentar raciocinar. Nem um minuto se passava e ele reiniciava os movimentos fatídicos. Aquilo foi me irritando. O tempo ia passando e eu não conseguia deixar de me sentir incomodado. Cheguei ao ponto de prestar mais atenção no banquete dele do que em minha prova. Eu já estava praticamente marcando o intervalo de tempo entre uma retirada de mercadoria do bolso e outra.

Armando-me com olhares os mais ríspidos possíveis, eu tentava fazer com que ele percebesse minha indignação. Se percebeu, não deu a mínima. Bolso sem fundo não existe, mas que bolso gigantesco era aquele? E o que havia na embalagem de plástico que não acabava mais? Quando meu desespero já não suportava mais se calar, ele acabou.

COLEGAS
(Novembro ou dezembro de 1999)

Acredito em Deus, não em um deus que interfere em nossas vidas, num deus que atende às preces. Estamos sozinhos. Não creio haver um ser que vela por nós, que nos ajude naquelas situações mais necessitadas. Não acredito num ser que escuta nossos clamores.

Ontem (3/11) eu conversei com uma colega de sala. Nós nos conhecemos no ano passado. Ela é extremamente calada em sala de aula; raramente tem-se a chance de escutá-la. Somente quando a pedem para apresentar algum trabalho pode-se saber a bela cor de sua voz. E curioso: nunca a vi manifestar alguma dúvida. Por certo ela as tem. Qual a razão de ela não as manifestar, já que é tão competente aluna? Ou será que é pelo motivo de ser competente demais? Será timidez?

Geralmente conversamos pouco um com o outro, mas nossos diálogos são úteis. Ela discorda de mim, quando digo que estamos sem apoio, que deus nenhum nos auxilia.

Na conversa de ontem, nada dizíamos sobre crenças. Ela me disse que está vivendo um momento difícil de sua vida, barra pesada. Não deu mais detalhes. Fiquei com vontade de poder fazer algo por ela. Enquanto pensava se poderia ajudá-la, escutava o que me dizia. Não comentou nada sobre o problema ou problemas que enfrenta. O que me surpreendeu foi o que ela me disse antes de encerrar seu comentário sobre a situação difícil que a rodeia.

Ela disse que acredita (e nesse momento, como que abrindo um parêntese, ela lembrou minha descrença na intervenção de um deus em nossas vidas) que sou uma das pessoas que Deus colocou em seu caminho nessa difícil fase da vida dela.

Fiquei surpreso. Jamais eu podia suspeitar de que era visto por ela dessa forma. Senti privilégio e responsabilidade, fiquei sem saber o que dizer ou o que fazer.

Como podemos nos enganar a respeito da forma como julgamos que os outros nos olham. Achei o comentário dela importante, íntimo. E se ela estiver certa, se nossa aproximação tiver mesmo um toque divino, não posso deixar de dizer que isso também contribui para o privilégio a que já me referi. A responsabilidade também aumenta. Se na verdade as coisas são assim, creio ser uma boa ser o escolhido de Deus para, de algum modo, ajudar alguém. Caso as coisas sejam assim, não deve ser de todo ruim cumprir os desígnios de Deus – se é que Ele os tem da forma como se suspeita.

Tenho razões para querer ajudá-la. Admiro-a, torço por ela. Possa eu fazer algo, possa eu ajudá-la por meio da vontade divina. Ou apesar da falta ou da ignorância desta. E, se for o caso, que Deus nos ajude.



AS LETRAS




DESCOBERTAS
(1a quinzena de julho de 1994)

Coisa curiosa é o ato de descobrir um autor. Quanto mais lemos, mais deparamos seu nome, e o que pode vir a desengatilhar o interesse por este ou aquele escritor é algo muito vasto. Pode ser indicação de um amigo, pode ser que tenhamos lido o nome do autor num livro de um outro autor que muito admiramos, pode ser que a curiosidade tenha sido suscitada devido a uma citação numa entrevista, por exemplo.

Alusões aos clássicos são mais fáceis de serem encontradas. Quem lê, sabe disso. Frequentam assiduamente as páginas. Dos convites de casamento, passando pela publicidade e pelos jornais, é comum deparar a citação de algum clássico da literatura. Ainda bem, pois a frequência que deparamos o nome de determinado autor pode nos incitar a conhecer sua obra. E mais: quando isso ocorre, contribui-se para que o que é eterno continue a sê-lo.

Sei de amigos que carregam consigo listas de autores ainda não conhecidos por eles. Também adoto esse procedimento, e quando algum desses amigos me mostra uma dessas listas, fico pensando no longo caminho por ele percorrido até o nome de algum autor ir parar ali, em sua lista. Como será que ele descobriu tal autor? O que terá causado sua curiosidade? E envolvido pelo momento, fico até curioso para conhecer os autores que frequentam as listas de meus amigos.

O melhor é que todo esse processo de descobrimento de livros, eu assim chamaria, vai se tornando uma bola de neve; vai-se descobrindo novos afluentes nesse rio, novos galhos vão se incorporando a essa árvore. Novos leitores e autores vão firmando um belo e espontâneo pacto.
E vocês já repararam que ao lermos determinado livro, parece que passamos a deparar o nome de seu autor de modo mais frequente?

É TUDO A MESMA COISA
(2a quinzena de agosto de 1994)

Da Vinci escreveu que “a felicidade está na atividade”. Já li em algum lugar que “felicidade é ter o que fazer”.

Disse Lao-Tsé: “De dentro vem o que por fora se revela”. Cristo declarou: “A boca fala do que está cheio o coração”. Já Buda, por sua vez: “O que somos é a consequência do que pensamos”.

Todo mundo já ouviu dizer que “quem planta colhe”. Segundo Einstein, “o único lugar onde sucesso vem antes de trabalho é no dicionário”.

Para Jorge Luis Borges, “sem leitura não há literatura”. E já que o papo é literatura, alguns versos de Drummond: (...) “Furto a Vinicius/sua mais límpida elegia. Bebo em Murilo./Que Neruda me dê sua gravata/chamejante. Me perco em Apollinaire. Adeus, Maiakovski./São todos meus irmãos, não são jornais/nem deslizar de lancha entre camélias:/é toda a minha vida que joguei.//Estes poemas são meus” (...).

Ainda na literatura, não nos esqueçamos da descoberta do coronel Aureliano Buendía, ao afirmar: “A terra é redonda como uma laranja”.

Novamente, Drummond: “Mesmo no silêncio e com o silêncio dialogamos”. Nietzsche: “Os grandes eventos não são nossas horas mais ruidosas, mas nossos instantes mais silenciosos”.

Quanto à invenção do avião: para uns, Alberto Santos Dumont; para outros, os americanos Wilbur e Orville Wright.

É como escreveu o deputado federal Artur da Távola: “Todo mundo acaba descobrindo as mesmas coisas”.

LONGFELLOW, O CAMARADA
(8 de novembro de 1996)

Quando eu tinha oito anos, nove, dois livros me envolviam. Um deles se chama “As mais belas histórias”. Entre elas, a de Rapunzel e a de Ariadna. O outro é “As mais belas poesias”.

Ambos os livros são ilustrados. O primeiro tem um prefácio que eu acho o máximo. Lembro-me de “A gata borralheira”, de “O gato de botas”, de uma que traz como personagens principais quatro animais, e se chama “Os músicos de”... Qual é mesmo a última palavra?

As ilustrações do segundo muito me atraíam. Algumas delas eu até cismava que era capaz de desenhá-las. Ele contém poesias como “Círculo vicioso”, de Machado de Assis, “O baile na flor” (não me lembro do nome do autor), algo de Olavo Bilac e Rabindranath Tagore, entre outros.

Dos livros que li na infância, são esses os dois frequentemente relembrados. Estou até mesmo pensando em tentar adquirir edições mais recentes ou livros em melhor estado. Além do mais, salvo engano, o livro “As mais belas histórias” é dividido em quatro volumes, e só tenho um.

Em meados do ano passado conheci o professor Edson. Ele dá aula de redação. Tornamo-nos amigos, e a literatura tornou-se assunto comum entre nós. Com a vivência de quem já leu e viu mais do que eu, escutá-lo é sempre bom. De vez em quando, mostro pra ele algo que escrevo. Como a amizade gradativamente tornava-se sólida, ele me emprestou um livro chamado “Análise e interpretação da obra literária”, de Wolfgang Kayser, um grande autor. Tanto gostei do livro que ele já faz parte das desejadas futuras aquisições. Fiquei uns seis meses com o livro dele.

Ao pensar que já era então o fim desse capítulo, ele me empresta o segundo volume da obra de Wolfgang Kayser. Eufórico, iniciei a leitura em sala de aula, enquanto aplicava prova. Chegando em casa, comecei a folhear o livro, pescando trechos aqui e ali, quando deparei um poema intitulado “The arrow and the song”. Iniciei, por curiosidade, sua leitura. À medida que lia, sentia um quê de familiaridade, e antes do término da segunda estrofe me lembrei de que já conhecia o poema desde pequeno, graças à coletânea “As mais belas poesias”.

Foi ótimo reler, tempos depois, e num outro livro, um poema que eu tanto lera na infância. Seu autor é H.W. Longfellow, e a tradução a seguir, extraída do livro que o Edson me emprestou, é ligeiramente diferente dos versos lidos na infância. Este é o poema:

“Disparei para o ar uma seta,/Caiu na terra, não sei onde;/Pois tão depressa ela voou que o olhar/Não a pôde seguir no voo.//Uma canção eu exalei para o ar;/Caiu na terra, não sei onde;/Pois que olhar tão agudo, tão forte,/Capaz de seguir o voo de uma canção?//Muito tempo depois, num carvalho/Encontrei a seta, ainda inteira;/E a canção, do princípio ao fim,/Num coração amigo fui de novo encontrá-la”.

MARK TWAIN ATROPELADO EM PATOS DE MINAS
(16 de junho de 1997)

Cheguei à livraria com a seguinte certeza: comprar um livro. Não sabia ainda qual livro eu compraria, mas de lá eu não sairia sem livro. Comecei a vasculhar as estantes. Muitos autores para pouco dinheiro. Por questões financeiras, e também disciplinares, eu havia prometido a mim mesmo comprar um só livro. Ainda que minhas mãos ficassem coçando de vontade de levar mais uns cinco ou seis, seu seria forte o bastante para resistir às facilidades no pagamento ou aos descontos, caso eu pagasse à vista. Após os flertes de praxe, decidi levar para casa “O príncipe e o mendigo”, de Mark Twain. Ainda conheço pouco do autor, tendo lido apenas uma coletânea de seus contos.

Saí da livraria satisfeito com minha disciplina. Meu bolso não sofrera tanto. Guardei o livro numa sacola, pendurei a mesma no guidão da bicicleta e tomei o rumo de casa satisfeito da vida, pensando em iniciar a leitura assim que chegasse a meu quarto. Ao tomar o trepidante asfalto da Duque de Caxias, logo após a Praça dos Bandeirantes, o livro começou a dar sobressaltos dentro da sacola, reclamando do trajeto. Mesmo diante de tal reação não me sobressaltei, por já estar acostumado aos sacolejos e por achar que o livro não corria riscos. De repente, a alça da sacola se partiu, fazendo com o que o Mark fosse parar no chão, protegido apenas pelo fino material da sacola.

A princípio, não me preocupei. Uma simples queda não o mataria. Assim que fui retornar, divisei um carro que se aproximava lentamente. Não me preocupei novamente. Pensei que o motorista não se arriscaria a passar por cima daquele embrulho branco  recém-surgido. Tranquilamente, aguardei o desvio. Mas ele não desviou. Aí, sim, fiquei preocupado. Sem mais delongas, passou as duas rodas da direita sobre o estirado Twain. Depois, lentamente prosseguiu.

Olhei para o carro que se distanciava. Memorizei sua placa. Finalmente, mudei de ideia. Achei melhor não criar caso por causa de um atropelamento. Retornei e apanhei meu amigo. A sacola morreu; quanto ao Mark, após revirá-lo, percebi que ele sobrevivera.

Retomei o caminho de casa. A duas quadras de meu destino, percebo o carro envolvido no acidente, estacionado. Ao ver que me aproximava, o motorista me perguntou se o embrulho continha algo que fosse quebrável. Respondi que não e ele me pediu desculpas.

INTERTEXTUALIDADES
(21 de julho de 1997)

Em agosto de 1994, escrevi para um jornal local um texto que dava exemplos de intertextualidades. Volto a citar outros.

Madre Cristina Maria é autora de “Psicologia Científica Geral”. Nele há o trecho: “A intuição é uma compreensão imediata. A inteligência lança-se num trabalho árduo, aparentemente estéril e desconcertante. Gasta esforço não imediatamente proporcionado aos resultados. Procura e não acerta; não sabe a quem indagar. Deparam-se-lhe soluções negativas: suspeita que assim não é, sem atinar com o que é. A inteligência sente-se então perdida, desencaminhada e sem termos para se reorientar. Atrás dessa pseudodesordem, ultima-se profícuo trabalho. Aquilo que as forças conscientes não conseguem, em seu prolongamento inconsciente, o psiquismo luta para conquistar. Na surdina das profundidades a intuição vai desvendando o ser, vai arrancando seu segredo, vai levando de vencida seu mistério, vai se inspirando na sua produção.

“Mas esse esforço só será criador quando uma inteligência brilhante operar sobre avultado lastro de saber. Significativa cultura geral e fecunda formação especializada são condições essenciais ao sucesso da intuição genial. Quem não se dispõe a anos ininterruptos de exaustiva pesquisa e de concentrada meditação jamais poderá pretender um momento de intuição genial. A criação absorve o homem, exigindo-lhe a consagração da vida”.

João Guimarães Rosa, no conto “O Espelho”, escreveu: “Releve-me não detalhar o método ou métodos de que me vali, e que revezavam a mais buscante análise e o estrênuo vigor de abstração. Mesmo as etapas preparatórias dariam para aterrar a quem menos pronto ao árduo. À medida que trabalhava com maior maestria, no excluir, abstrair ou abstrar, meu esquema perspectivo clivava-se, em forma meândrica, a modos de couve-flor ou bucho de boi, e em mosaicos, e francamente cavernoso, como uma esponja (...). Com que, então, durante aqueles meses de repouso, a faculdade, antes buscada, por si em mim se exercitara!”

Albert Einstein: “Penso noventa e nove vezes e nada descubro: deixo de pensar, mergulho em profundo silêncio – e eis que a verdade se me revela”.

Agora, espelhos. Guimarães Rosa novamente: “Sim, são para se ter medo, os espelhos”. Jorge Luis Borges: “Já nos acostumamos com os espelhos. Ainda assim, existe algo de temível nessa duplicação visual da realidade”.

RADUAN NASSAR E EU
(8 de setembro de 1997)

Foi peremptório: “Compre este livro. Se você não gostar, eu te restituo o dinheiro”. Comprei. O dinheiro não foi restituído – o livro não foi lido ainda. “Lavoura Arcaica”, de Raduan Nassar.

Ele está guardado, aguardando leitura. Mas não por muito tempo. Recentemente, li uma entrevista com ele e fiquei maravilhado. Alguns trechos cito:

“Que fique bem claro que me lixo para essa entidade que se identifica com o que está aí e que porta o elegante nome de ‘homem moderno’, que mais parece grife de moda”.

Outro: “Não se faz literatura para valer com paixão requentada”.

Mais um: “Ficou difícil ler alguma coisa nos últimos anos por causa da diarreia antidiscursiva que acabou atacando também a prosa. É uma palavra solta aqui, é outra sem qualquer nexo lá, uma poesia que uma hora é pintura, aí já não é mais pintura, é música, é eletrônica, é o escambau. Confesso que não tenho recursos e nem paciência. Fico até me perguntando se esses poetas imaginam que o leitor deve se debruçar a vida toda sobre o que eles fazem, para poder sacar alguma coisa. Me pergunto também se não existiria algo de comum entre essa moda antidiscursiva e subnutrição mental. Continuo pensando que as palavras, como os indivíduos, só ganham força quando se organizam ao lado das outras. Mas o desmanche não vem acontecendo só na literatura e nas oficinas de carros roubados”.

Sobre ter abandonado o curso científico, o curso de letras, o curso de direito, a empresa familiar, uma criação de coelhos, outras coisas e a literatura: “Por que só quando abandonei a literatura eu teria me transformado em personagem fascinante? Não é esquisito?”

Mais: “De um modo geral, acho que os professores transferem para os alunos gostos e critérios pessoais, o que acaba formando um rebanho destinado a adorar certos nomes. Talvez se devesse treinar o aluno a pensar com a própria cabeça, a ser ele mesmo na sua relação com as leituras – supondo-se, é claro, que o professor também conseguisse pensar com sua própria cabeça”.

Para fechar: “Os autores que constam dos currículos escolares acabam desumanizados, são transformados em pequenos deuses. O resultado disso é que o próprio ato de escrever é sacralizado, quando escrever é uma atividade como qualquer outra”.

SOIS LUZ
(29 de setembro de 1997)

Frequentemente passo um dia inteiro com uma canção na cabeça. Pode ser uma que eu tenha acabado de ouvir no rádio; pode ser uma que me vem à mente de repente, sem mais nem menos. Esteja eu fazendo o que for, e lá está a canção na cabeça, presente sem incomodar, dando o tom sem me deixar desafinar.

Há palavras. De repente, uma surge, e pronto: fico o dia inteiro com ela na cabeça, geralmente tentando me lembrar onde a li ou onde a ouvi. Não me esqueço dela, que fica sendo repetida sempre, com veneração. Assim já foi com a palavra fornido, com a centelha. Chego a pronunciá-las, numa espécie de contato carnal com elas. Digo em voz alta: mansarda; em seguida, silencio-me, concentro-me na palavra, separo suas sílabas, misturo-as; leio-a de trás para frente – coisa que também gosto de fazer com os números.

Hoje, dezoito de setembro, a palavra é luzeiro. Palavra belíssima. Ela me dominou e quase tenho certeza de que a origem dessa súbita lembrança está no Gênesis: “Que haja luzeiros no firmamento”. (Aliás, firmamento é outra palavra formidável.) Luzeiro vai tomando conta de mim, faz-me pensar num Luzeiro do Sul. Daria poesia, ensaio, tese, teoria, romance, crônica, conto, apontamento, máxima: a palavra é incentivadora. Luzeiro é uma palavra... iluminante. É luz sobre qualquer dia, e estou mesmo pensando em me lembrar dela todos os dias, numa esperança de dar banhos de luz diários em minha alma. Sei que sempre que eu parar para pensar em luzeiro, algo em mim será melhor. Luzeiro é palavra que incita, sugere; minha abre-te-sésamo: há tesouros escondidos em mim que tenho de “roubar”; há entradas secretas que desconheço; um luzeiro me salvaria. Há escuridões incomodantes que jamais viram luz pela fresta. Há raios solares que vêm lá de longe, driblam nuvens, encontram passagem através da janela praticamente fechada e descansam na escrivaninha.

Luzirão meus olhos, assim como luzem sementes que brotam e empurram a terra; Marcel Proust; abraço pra matar a saudade; ideia genial; busca incessante; dom exercido; Lua cheia; bondade; “Grande Sertão: Veredas”; matemática; Francisca de Castro Oliveira (minha tia); erro assumido; barulho de mar ou de amor. Sois luz. Luzirei como vós.

MEU PRIMEIRO TEXTO INESQUECÍVEL
(17 de janeiro de 1998)

Como não é sabido por muitos, já escrevi alguns textos. Se não fosse pela minha insegurança, eu poderia ter escrito mais e melhor. Ao escrever, é aquela velha agonia: a de pensar se os outros vão gostar, o que vão dizer, o medo de ser criticado. Nem gosto de mostrar os textos para meus amigos. Tenho medo do que eles possam vir a dizer. O medo não é o de tornar público o texto, seja por que meio for. O medo é o de acompanhar as reações do leitor cara a cara. Do leitor distante, não tenho medo. Pensando bem, nem da crítica feita à distância. O terrível é aquela crítica feita diante de minhas inseguranças.

Desde menino, tenho lido muita coisa. Muitos textos foram lidos quando eu ainda era muito jovem; não foram devidamente aproveitados. Nietzsche é um exemplo de leitura que veio muito cedo. O bom é que há muito tempo para releituras (assim espero). Entretanto, a vontade de escrever ou a suspeita de que eu tinha habilidade para a coisa ou mesmo a constatação de que eu gostaria de produzir textos veio num dia em que eu teria de escrever uma redação como dever de casa. Vários títulos foram sugeridos pela Lúcia, a professora. Eu teria de escolher um. Havia uns dez.

Eu escolhia um, e nada. Escolhia outro, e nada. Tentei vários, mas nada, nada e nada. Quase desistindo, e quase já tendo escolhido todos os títulos, “Minhas mãos” foi a sugestão ceticamente escrita no papel. Antes de começar a escrever, fiquei algum tempo olhando para as mãos. Observava-as de um lado, do outro; fazia gestos, colocava uma em contato com a outra. Fui me dando conta de que eu ainda não as analisara merecidamente. Esquecido da redação, fiquei nesse namoro.

Quando comecei a escrever, as frases vieram sem tropeço, jorrando de minha mão que velozmente tentava acompanhar o fluxo de ideias. Aquele jorro me dava prazer, as frases iam se tornando numerosas, eu ia me permitindo ser levado pelas sensações que brotavam e pela mão que ia preenchendo o papel. Tudo fácil, claro. Eu me sentia sendo o que sou, sentia-me livre, em paz.

Acabado o texto, reli. Reli de novo. Pensei: “Me senti tão bem. Seria ótimo sentir-me desse jeito novamente. Quem sabe, se eu tentar escrever sempre, não vou sempre me sentir assim?” Movido por tais pensamentos, passei a escrever.

Não sei mais qual a nota. Já tentei achar a redação. Eu a reescrevi. Não gostei. Eu queria palavra por palavra. Ela deve ter mesmo se perdido por aí.

OLGA
(30 de outubro de 1999)

Foi há mais ou menos dez anos. Eu tinha acabado de começar num emprego novo, e conversava com um colega de serviço. O nome dele é Celso Anicésio. Era nossa primeira conversa. Num determinado trecho do diálogo – não me lembro mais do motivo – perguntei-lhe se ele gostava de ler. Depois, quando nossa amizade já estava consolidada, ele me diria que ficara surpreso com minha pergunta. Naquele momento, o da pergunta, ele respondeu afirmativamente, tirando da gaveta de sua mesa um livro que estava lendo. Era “Olga”, de Fernando Morais. Cheguei a pegar no livro e folheá-lo. Não sei se era dele nem me lembro também se foi cogitada a possibilidade de a obra ser emprestada para mim. Celso disse que estava gostando da leitura.

No começo deste semestre, numa conversa que eu mantive com o professor Luiz, de geografia, ele me recomendou a leitura de “Olga”. Comentei com ele que o livro já me havia sido indicado por um amigo, mencionando o episódio ocorrido entre mim e Celso. Os elogios deste foram corroborados por Luiz, que acabou por me emprestar o livro. Na semana passada, o li.

Leia-o. Da mesma forma que lamentei o fato de ter demorado tanto tempo para realizar sua leitura, sinto-me privilegiado pelo fato de ela ter vindo. E prepare-se: após iniciada, a vontade será de não mais parar. O livro tem densidade, é tenso, enxuto. E como é real, tem daquelas histórias que a imaginação, infelizmente, não concebe. Uma delas é a história que envolve o cão Príncipe. Não concebo alguém que pensaria num fato daqueles para um romance.

Não escrevo novidade alguma; o livro foi lançado há um considerável tempo; foi muito lido. Mas se você ainda não leu, quero que sinta, a despeito da lamentável história contada, o quanto sua leitura é prazerosa, pois é bem escrito. Nada como ter o que contar e saber contar.

Lembrei-me de um trecho de que gostei. É de uma carta escrita por Heitor Lima, advogado: “A fábula de que a mulher é um enigma foi inventada precisamente para justificar as atrocidades da civilização masculina contra ela. Não há nada mais facilmente acessível que a alma da mulher. O homem, porém, finge não entendê-la a fim de furtar-se a uma soma de enormes deveres para com ela”.

O SUB-REALIZADOR

A convivência com livros acaba gerando outros livros. A impressão forte que tenho é a de que a literatura é a arte que mais se alimenta de si mesma. Mesmo tendo como substrato a vida e outras formas artísticas, a sensação que tenho é a de que a literatura é a forma de arte que mais depende de si mesma para continuar existindo. Segundo Borges, “sem leitura não há literatura”. Penso que a literatura nasce, principalmente, da convivência com a literatura. Ela não tem de ser necessariamente metaliteratura, mas vem à tona, assim me parece, por causa do convívio consigo própria. Ela surge devido ao contato consigo mesma; é uma arte “egoísta”. Caminhar entre livros não implica fazer literatura. Contudo, tenho comigo que fazer literatura implica caminhar entre livros. Há escritores em que esse caminhar entre livros é mais nítido, devido às alusões, referências. Noutros, nem tanto, o que não significa que não caminham.

Livros, livros, livros...

Quando eu era adolescente, metido a ler coisas que, em tese, não eram voltadas para infanto-juvenis, ocorreu de eu ter em mãos o “Psicologia da adolescência”, de Arthur T.  Jersild. Querendo entender o furor juvenil que então ocorria comigo, comecei a leitura. Lembro-me de pouca coisa, mas uma de que nunca me esqueci foi o conceito do jovem considerado sub-realizador. Em minha empáfia, deduzi que eu era assim. Diz o livro: “O chamado ‘sub-realizador’ é um estudante cujo trabalho escolar é claramente inferior ao que se poderia esperar com base nas suas notas num teste de inteligência”. Nunca fiz um teste de inteligência, por medo de me decepcionar.

A citação acima não veio de memória. Tenho o livro bem aqui. Eu o consegui hoje (28/7), num sebo. Quando o vi pela primeira vez, foi na biblioteca do Cesu. Eu era freguês de carteirinha. Estudava pela manhã, almoçava e ia para lá. Passada essa fase, foram raras as vezes em que me vi diante do livro de Arthur T.  Jersild. Acho que só o revia mesmo nas vezes em que eu voltava ao Cesu. Há pelo menos uns quinze anos eu não tinha contato com a obra.

Gostamos de relatar coincidências. Numa crônica publicada em 1996, falei sobre os livros “As mais belas histórias”. Minha procura me fez ir até um sebo. Não os achei. São quatro volumes, pequenos, de capa azul e Rapunzel numa sacada. (Se você os tiver e quiser vendê-los ou dá-los para mim, beleza.) Mesmo não os achando, dei uma conferida no acervo. Quando eu já aguardava o troco referente a dois livros que havia comprado, olho para o lado, na seção de livros sobre psicologia, e vejo o “Psicologia da adolescência”. O sorriso foi leve, não me tornei afoito. É como se eu tivesse a certeza de que um dia ele estaria comigo, sendo que para isso nenhum esforço seria necessário. Saudade, página revisitada... Eu o peguei. Nisso, guardei o troco. Olhei capa, contracapa. Depois, o abri. Aí veio a coincidência: eu o abri bem na parte em que se mencionava o tal do jovem sub-realizador. Li uma linha, fechei o livro e o trouxe para casa.

No momento em que bati os olhos precisamente no trecho que tratava sobre o jovem sub-realizador, veio-me a ideia para esta crônica. Achei coincidência, após tantos anos, eu abrir o livro bem nesse trecho, cuja essência ficou na recordação. Reencontrar um livro anos depois e bater os olhos bem no trecho preferido... Por um capricho qualquer, ocorrido antes da citação no terceiro parágrafo, eu não estava conseguindo achar o trecho sobre os tais jovens sub-realizadores, aqui em casa. Hoje, não sou mais jovem. Mas realizo, embora ainda duvidando.

OLIVETTI

Hoje, o saudosismo tomou conta. Nada triste, melancólico. Eu havia me deitado para curtir a sesta e tentar me restabelecer de uma noite em que havia dormido pouco. Mal havia me deitado e devaneios surgiram. Um deles me conduziu até uma velha máquina datilográfica que tive. Lembrei-me dos vários textos nela datilografados, quantas provas elaboradas. Ela chegava a fazer algum sucesso, pois seus tipos eram ligeiramente menores do que os tradicionais, o que conferia aos textos nela datilografados uma certa elegância e um certo comedimento sábio.

Também num tempo que se foi eu tinha um respeito exagerado por livros. Demorei muitos anos para perder esse “respeito”. Enquanto ele existiu, eu me proibia de fazer qualquer marcação que fosse em qualquer livro. Jamais. Atitude ultrajante, inadmissível. Com o passar dos anos, a coisa foi ficando complicada. A princípio, eu lia e escrevia à mão os trechos de que gostava, para depois guardá-los dentro do livro. Quando os trechos eram muitos, eu anotava onde começavam e terminavam; após a leitura eu os datilografava.

Ainda no devaneio, lembrei-me de que tenho comigo trechos e mais trechos datilografados do “Grande Sertão: Veredas”. Contudo, mesmo datilografar estava ficando complicado. Então, forçando-me, comecei a marcar os livros. A princípio usando lápis; hoje em dia, caneta. Só que não deixei de ter a sensação de que estou caindo em sacrilégio. Tanto que há livros que ainda não tive coragem de marcar. “Moby Dick”, do Melville, é um deles; um outro é um livro cujo título traduzido seria algo como “O livro das coisas que nunca existiram”. Eu ainda os “preservo”. Quanto a eles, mantenho o escrúpulo. Já tentei e tentei a primeira marcação, ainda que feita com lápis, mas não consegui. Fato é que não consegui me livrar da impressão de que marcar livros é coisa feia. Princípio esse que contraria, por exemplo, Quintana. Há um trecho dele em que é dito que os livros, principalmente os infantis, devem vir com muitos espaços em branco para que a criançada possa fazer a festa. Por ora, ainda não aprendi a curtir essa festa, a despeito dos sensatos argumentos já enumerados por amigos.

Aconteceu que o devaneio me fez abandonar a vontade de tirar a soneca. Levantei-me e saí à procura da velha Olivetti, numa vontade grande de escutar seu tac-tac-tac-tac-tac-tac-plim. Revirei a casa e não achei. Meu irmão estava no banho. Gritei para ele sobre o paradeiro da máquina. Ele me lembrou de que eu a havia dado para o Bruno, nosso sobrinho. Liguei para a casa dele. Nada. Liguei para o celular. Ninguém. Fiquei na vontade, de modo que o jeito foi apelar para um computador, já que não tenho o hábito de produzir textos à mão. Assim, esta crônica saudosista vai sendo escrita por intermédio de equipamento fora de sintonia com a saudade que tomou conta. Em busca de um tom sépia, estou diante de fartura de cores. Mas tudo bem. A tecnologia pode também servir à saudade e agradar aos caprichos dos mais velhos.

Não me dou por rendido. Que o entusiasmo não arrefeça. Meu sobrinho deve estar na escola. Logo mais, pretendo ligar para ele e lhe pedir emprestada a velha máquina. Não importa que esta crônica tenha sido escrita em computador. Dou um jeito de bolar depois qualquer besteira só para sentir o gosto de tocar aquele velho teclado amigo.

Sintoma de que a idade vem chegando? Certamente. Mas a idade vem chegando desde que nasci. Não me preocupo. É que bateu a saudade de coisas antigas, de papéis amarelecidos, de páginas saboreadas por traças. Cheiro de passado, cores de antanho, papéis perenes. Entrementes, permitam-me acionar o comando Ctrl+B. É preciso salvar a crônica.

O PAPEL DO APRENDIZ

Minha primeira professora foi minha mãe. Não sou metafórico aqui. Sou literal. Ela pouco sabe escrever. As letras saem lentas, tortas, truncadas. Embora não tenha tido a oportunidade de frequentar regularmente uma escola quando mais nova, não se deu por vencida. Depois de madura, com os filhos grandes, esteve num desses cursos de alfabetização para adultos. Melhorou um pouco a escrita e, na matemática, passou a se virar por conta própria.

Foi ela quem me ensinou as primeiras palavras que aprendi a escrever. Naquela época, não fiz o que então era chamado de pré. Fui entrar numa sala de aula aos sete anos, levando contudo algumas palavras e alguns nomes que já sabia escrever, graças a minha mãe, e com noções de matemática, graças a meu pai, que me tomava a tabuada enquanto caminhávamos.

Eu viria depois a saber que as primeiras letras que rabisquei foram motivo de apreensão para minha mãe. Eu parecia ter uma espécie de nervosismo incurável e incontrolável. Bastava que eu tivesse um errinho bobo para que eu rasgasse o caderno. Ela, paciente, tentava me mostrar que não era por aí, que errar é natural... Eu insistia consumindo folhas e mais folhas do caderno. Ela, cada vez mais temerosa, chegou a pensar que eu seria um daqueles que dariam trabalho quando passasse para dentro de uma sala de aula. Cautelosa, avisou a professora de meus rompantes. Em sala de aula, nunca me enfureci.

Hoje, lembrando essa época, algumas imagens e fatos foram desancorados. Os cadernos que eu destruía, por exemplo, não eram comprados. Eram feitos pela minha mãe. Ela aproveitava os papéis que embrulhavam os pães que meu pai invariavelmente trazia. Durante sua vida inteira ele trabalhou numa padaria. Sempre houve pão, sempre houve papel. Minha mãe juntava os papéis e depois fazia os cadernos que destruí.

Seria bom se eu os tivesse preservado. Os papéis que outrora haviam envolvido os pães eram caprichosamente passados, até ficarem lisinhos. Depois, eram recortados e colados. Por último, linhas espaçosas eram riscadas. Eu gostava de acompanhar a feitura dos cadernos. Prestava atenção, queria aprender, dava palpites, mas não sabia preservá-los. Não me lembro se cheguei a levar uns merecidos tapas pelo meu comportamento. Se não, creio que foi pelo fato de que ela considerava que minha atitude não era luxo nem chilique de menino. Certo é que bem alimentado e tendo papel reciclável em casa, fui me arriscando no mundo das letras. A paciência e a compreensão dela não foram em vão. Minha caligrafia chegou a ser elogiada pela Dona Madalena, a professora da primeira série.

O gosto que eu viria a adquirir por livros vem da influência que recebi. A limitação de meus pais, tanto financeira quanto de escolaridade, não os impediu de transmitir para mim a ideia de que aprender é bom e necessário. Fizeram isso meio sem querer, meio sem método; intuitivamente. Funcionou. Minha mãe, às voltas com os cadernos artesanais; meu pai, com as revistinhas do Tex Willer, que eu depois leria. Chegamos a comentar algumas das histórias – numa delas, o Jack Tigre leva uma surra assim que chega sedento a um vilarejo. Muitos anos depois, enquanto eu e meu pai conversávamos sobre essa história, eu me surpreendi com a profusão de detalhes lembrados por ele.

Fizeram de tudo para que não faltasse nada para minha educação. Alimentaram-me de pães, deram-me livros. Cumpriram bem o papel.



AS CANÇÕES




LEGIÃO URBANA NO UTC, EM UBERLÂNDIA
(29 de agosto de 1992)

Era noite de sexta, dia 21 de agosto de 1992. Aguardo com grande expectativa a chance de, pela primeira vez, assistir a um show do Legião Urbana. A previsão é de que o show comece às 21h. São 19h30 e já me encontro apreensivo, aguardando o momento de correr para dentro do UTC, em Uberlândia.

A espera é longa, conto cada minuto. São 20h. Começa a se formar a fila para que possamos entrar. Após uma ligeira confusão, tem início a entrada do pessoal. O clima é de euforia. Ainda na fila algumas pessoas já cantavam as canções da banda. A noite prometia.

Corro para dentro e ocupo um lugar bem em frente ao palco. Pouco a pouco o ginásio vai sendo tomado por um público jovem e empolgado. Assim que o som é ligado, muitos já começam a ensaiar o coro: “É Legião, é Legião”. Começa a tocar “Joyride”, do Roxette. Minutos se passam, pessoas surgem. Ao som do Roxette o ginásio vai sendo ocupado.

Já são 21h. O público é excelente. Agora é aguardar. Por volta de 21h15 trocam o som do Roxette por Beatles. Até o início do show ficaríamos ao som do quarteto de Liverpool.

O tempo passa, a expectativa aumenta, assim como o público. Grande parte da jovem plateia clama pela presença da banda. Faltando vinte para as 10 as luzes se apagam. Delírio. Só se ouve “é Legião, é Legião”. A voz de Renato Russo anuncia: “Boa noite”.

Tem início o tão aguardado espetáculo.

A primeira música é “Love song”, do último LP da banda. Logo de cara percebe-se a modificação no arranjo. A segunda é “Metal contra as nuvens”, com duração de 11 minutos e executada na íntegra. Entre um discurso e outro, Renato incendeia a galera, desfilando os clássicos da banda.

Com tantos sucessos, nem seria necessário muito esforço para que em pouco tempo o show se transformasse numa festa.

Ao cantar “A montanha mágica”, Renato anuncia que cantará uma música cujo tema é praticamente desconhecido da juventude: drogas. Ele inclui trechos de “My girl” nos versos de “O teatro dos vampiros”. Em “Vento no litoral”, inclui trechos de “Carinhoso”, clássico da MPB. Também interessante a citação de “Ticket to ride” e “Jealous guy”.

Houve a inclusão no repertório de músicas que raramente eram executadas em show, como “Metrópole”, “Por enquanto”, “Andrea Doria” (segundo Renato, uma das mais pedidas na última turnê) e “Música urbana 2” (com um arranjo totalmente diferente). Houve ainda a inclusão de “A canção do senhor da guerra”, nunca gravada pelo grupo. De acordo com o vocalista, essa será a tônica da turnê por todo o Brasil.

Após duas horas de show, ao som de “Será”, os legionários se despediram. Em nossos rostos não podia haver contentamento maior.

COLUNA LETRAS E MÚSICAS
(2 de abril de 1994)

Um poema, além de lido, pode muito bem ser cantado. Alguns exemplos de poemas que foram musicados:

• Paulo Diniz – “José”, em poema de Carlos Drummond de Andrade.

• Fagner – “Fanatismo”, em poema de Florbela Espanca.

• Legião Urbana – “Love song (Cantiga de amor)”, em poema de Nuno Fernandes Torneol.

• Legião Urbana – “Monte Castelo”, com trechos da Bíblia e de um soneto de Camões.

• Barbara Streisand – “Memory”. Um dos autores, o poeta T.S. Eliot.

• Emerson, Lake & Palmer – “Jerusalem". Trechos da obra de William Blake.

***

Gabriel García Márquez já foi lembrado pelo menos em dois títulos de canções: “O amor nos tempos da cólera” (e não do cólera, como na tradução de Antonio Callado), uma canção do Rosa Púrpura, dupla que já se desfez, e também na canção “Macondo”, interpretada por Cláudio Nucci e Zé Renato.

***

Títulos de canções contendo a palavra California:

• “California blue” – Roy Orbison.

• “Hotel California” – Eagles.

• “De repente California” – Lulu Santos.

• “Going to California” – Led Zeppelin.

• California Dreaming” – The Mamas & the Papas.

COLUNA LETRAS E MÚSICAS
(9 de abril de 1994)

Frequentemente, nos encartes ou nas contracapas de LPs, escritores são citados. Eis alguns exemplos:

• Rabindranath Tagore, no encarte do LP “Pipes of peace”, de Paul McCartney, com a seguinte frase: “No amor, todas as contradições da vida se dissolvem e desaparecem”.

• Jack Kerouac, na contracapa do LP “Só se for a dois”, de Cazuza, com a estrofe “Minha vida/Que não me ama/Minha amada/Que nunca vai me amar/Seduzo as duas”. Há ainda uma canção com o grupo 10,000 Maniacs chamada “Hey Jack Kerouac”.

• William Blake, no encarte do disco “MCMXC A.D.”, do Enigma, com a frase: “O caminho do excesso leva ao palácio da sabedoria”.

• Jorge Luis Borges, no encarte do LP “Extraño”, do Nenhum de Nós, com os seguintes trechos: “Um cego é prisioneiro (1978)”. “A cegueira é um modo de vida que nos torna completamente infelizes. Um escritor, e acredito que, em geral, qualquer homem, deve achar que isto que lhe ocorre é uma ferramenta de trabalho. Todas as coisas nos foram dadas para um fim, e o artista deve sentir isto com mais intensidade. Tudo que nos acontece, mesmo as humilhações, as desventuras, as vergonhas, tudo nos é dado como material, ou como argila, para que modelemos nossa arte (1982)”. “A arte deve ser como um espelho que nos revela nossa própria face (1986)”. “A cegueira é cúmplice do esquecimento (1984)”.

***

Ray Charles gravou recentemente uma canção com a banda australiana INXS. O nome da faixa é “Please you got that”.

COLUNA LETRAS E MÚSICAS
(16 de abril de 1994)

• Jimmi Hendrix, Janis Joplin, Jim Morrison: todos extremamente talentosos e drogados. Todos morreram extremamente jovens. Sexta, dia 8 de abril, foi a vez de Kurt Cobain, do Nirvana. Suicidou-se com um tiro na cabeça.

• Eduardo Dusek, decidamente, intitula suas canções de forma peculiar. Alguns exemplos: “Lincharam o viajante espacial”, “A índia e o traficante”, “Rango”, “Samba heavy”, “Moderno pássaro andante”, “A loura do carteado”, “Valdirene, a paranormal” e “Classificados desclassificados”. Todas integrantes do LP “Dusek na sua”, de 1986.

• Há duplas de compositores que se destacam a ponto de seus nomes mais parecerem compor um só desenho no papel, sendo mesmo difícil concebê-los fora desse “desenho”:
Lennon/McCartney.
Sullivan/Massadas.
Jagger/Richards.
Ivan Lins/Vítor Martins.
Page/Plant.
Milton Nascimento/Fernando Brant.
Elton John/Bernie Taupin.
João Bosco/Aldir Blanc.

• “– Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga não. Deus esteja”. Assim João Guimarães Rosa inicia “Grande sertão: veredas”. Fernanda Pinto Rodrigues também se valeu da palavra nonada no seguinte trecho da tradução de “A casa dos mortos”, do Dostoiévski: “Por uma coisa séria, ou por um nonada, zás, me surravam”(...).

Por sua vez, James Joyce assim inicia “Ulisses”, segundo a tradução de Antonio Houaiss: “Sobranceiro, fornido, Buck Mulligan vinha do alto da escada, com um vaso de barbear”(...). Otto Lara Resende já emprega a palavra fornido (no feminino) no seguinte trecho do livro “Bom dia para nascer”: “Estico a caminhada até a banca de jornais mais bem fornida”(...).

COLUNA LETRAS E MÚSICAS
(23 de abril de 1994)

• Bandas famosas que fogem do circuito EUA/Inglaterra:
Abba e Roxette – Suécia.
A-ha – Noruega.
Scorpions – Alemanha.
INXS e Midnight Oil – Austrália.
Nazareth – Escócia.
U2 – Irlanda.
Glass Tiger – Canadá.

• Músicas com nome de mulher:
“Silvia” – Elvis Presley.
“Helena, Helena, Helena” (Alberto Land) – Lúcio Alves.
“Beth” – Kiss.
“Carolina” – Chico Buarque.
“Carie” – Europe.
“Doralice” (Dorival Caymmi/Antonio de Almeida) – Danilo Caymmi.
“Michelle” e “Julia” – Beatles.
“Luiza” – Tom Jobim.
“Maria Maria” (Milton Nascimento/Fernando Brant) – Milton Nascimento.
Ainda sobre mulheres: Bob Dylan disse em entrevista que o que mais chama sua atenção numa mulher é a voz.

Musas na literatura, elas, as mulheres, figuram em clássicas dedicatórias.
Pablo Neruda dedicou cem sonetos à sua mulher, Matilde Neruda, no livro “Cem sonetos de amor”. Gabriel García Márquez dedicou “O amor nos tempos do cólera” a Mercedes, sua mulher, escrevendo na dedicatória: “Para Mercedes, é claro”. Guimarães Rosa assim escreveu na dedicatória de “Grande sertão: veredas”: “A Aracy, minha mulher, Ara, pertence este livro”.

PACIÊNCIA
(2a quinzena de setembro de 1994)

Escreveu Jorge Luis Borges: “Acredito que a máxima ambição de um escritor seria que seu nome fosse esquecido, mas que alguma frase sua ficasse como parte de um idioma; ou seja, que chegasse a ser anônimo – o que não é pouca ambição”.

Comecei assim esta crônica para lhes contar a seguinte história: certa vez, voltando de Lagamar, após um baile, paramos – eu e dois amigos – num posto localizado na entrada de Presidente Olegário. Enquanto comíamos e bebíamos, ouvi alguém assoviar uma canção. Logo percebi se tratar de “Patience”, da banda Guns ‘n’ Roses. Então pensei comigo na maravilha que é o trabalho de alguém encontrar ressonância. Estávamos no interior de Minas Gerais, de madrugada, pouco movimento na rodovia, fazia frio, e eis que então alguém assovia uma canção composta por alguém que certamente nem sabe da existência do lugar em que nos encontrávamos.

Isso foi há uns dois anos ou coisa assim. Um dia desses, indo trabalhar, ouço alguém assoviar uma canção. Novamente, “Patience” foi a canção escolhida. Logo me lembrei do então acontecido próximo a Presidente Olegário. Quem diria que muito tempo depois eu ouviria a mesma canção ser assoviada, dessa vez aqui em Patos de Minas. (Será que o assoviador daqui conhece o de lá?)

Em ambas as vezes em que ouvi a canção ser assoviada, foi inevitável fazer o paralelo com o que escreveu Jorge Luis Borges, pois esta pode muito bem ser a máxima ambição de um compositor: sua criação ser espontaneamente assoviada por alguém tão distante e desconhecido.

E o paralelo vale para as demais áreas do conhecimento. Pense em quantos poemas são lembrados nas cartas dos namorados, no cartão do buquê. Quantas frases célebres ilustram ensaios, palestras ou filmes; quantas pinturas, esculturas e desenhos se espalharam pelo mundo. Do sorriso da Monalisa, passando pela fórmula E = mc2 (essa aí virou até estampa de camiseta) e indo até a balada “Yesterday”, tem para todos os gostos. Escolha Pelé ou Shakespeare, Vivaldi ou Thomas Alva Edison. Felizmente, o leque é amplo.

Canções continuam sendo assoviadas, o mundo gira e alguém está nascendo. “E agora, José”? Paciência. E feliz aquele que teve amado o fruto de seu trabalho.

CANÇÕES, PALAVRAS
(10 de janeiro de 1997)

Canções pop sempre serão comigo, e na tarde de sábado, dia 4 de janeiro, elas estiveram comigo novamente. Mas antes delas, não posso deixar de escrever um pouco sobre outras que estiveram comigo muito antes, e até hoje figuram numa relação musical que fiz quando era menino. Na época, eu não tinha aparelho de som, mas mesmo assim eu ia fazendo a seleção, à medida que novas iam surgindo, de modo que aumentava enormemente em pouco espaço de tempo o número de canções escolhidas. A relação está devidamente guardada, mas não foi ainda gravada. São canções que fizeram sucesso na década de 80, como “Duel”, do Propaganda, e “Forever young”, do Alphaville.

O dia 4 de janeiro trazia uma tarde chuvosa, gotas mansas que me incitaram a ficar na cama até às 15h40. Levantei-me contente por estar em férias, podendo então continuar despreocupado naquela tarde que nada prometia mas muito realizou. Liguei para uma amiga minha e ela me disse que veria um filme que eu já vira. Não aceitei o convite dela para que víssemos o filme, lembrando-me, no entanto, que eu tenho sua trilha sonora gravada. Nós nos despedimos e fui logo procurar a trilha, atendendo à saudade de ouvir as canções feitas para a película. Revirei a mesa em meu quarto, revirei caixetas e não achei a danada. Achei uma outra fita em que estavam canções que há algum tempo eu não escutava. Embora gravada há mais ou menos um ano, nem me lembrava mais de tê-la. Corri os olhos sobre os nomes das canções que a compunham e decidi escutá-la. A trilha do filme ficaria para uma outra ocasião que, felizmente, não demoraria a chegar.

Liguei o som, coloquei a fita e aumentei a volume. Iniciadas as primeiras notas de “Song for guy”, de Elton John, e eu já havia sido transportado para o dia em que gravei a fita: eu estava em casa de uma garota que conhecera durante uma excursão para Porto Seguro. Enquanto estivemos lá na Bahia ouvimos muito uma canção chamada “Namoro a dois”, do Timbalada. Já em Patos, num belo dia ela me liga e me conta que estava com o CD do Timbalada, o que contém “Namoro a dois”. Fui correndo para a casa dela, já devidamente munido de uma fita para gravar a canção. Chegando lá, a surpresa foi fantástica: havia vários outros CDs com verdadeiras pérolas da música pop. Recebendo dela a autorização para gravar qualquer canção que me interessasse, fui escolhendo com dificuldade (havia muita coisa boa) aquelas que comporiam a fita. Enquanto isso ela me mostrava suas fotos tiradas lá em Porto Seguro, assunto de nossa conversa.

Gravei as seguintes canções: “Song for guy”, Elton John; “Namoro a dois”, Timbalada; “Purple rain”, Prince (na época ele ainda era chamado assim; hoje o nome dele é um desenho) and the Revolution; “Kiss”, Prince; “When doves cry”, Prince; “She”, Green Day; “Me diga”, Nando Reis; e “Mr. Jones”, Counting Crows.

Achei a trilha sonora que procurava; esta crônica foi escrita ao som das canções acima mencionadas; hoje (4/1) é o aniversário do Aldo, um grande amigo.

RENATO RUSSO
(15 de setembro de 1997)

Esta crônica talvez tenha vindo tarde demais. Há tempos penso em escrevê-la; aparentemente sem motivo, fico adiando, adiando...

Tudo começou quando eu era adolescente. Era bom ligar o rádio e escutá-lo cantar. Cresci ouvindo rock, e era bom vibrar com “Tempo perdido”, “‘Índios’”, “Será” ou “Quase sem querer”. Canções com uma cara pop, rock ou folk e uma letra interessante.

As letras não eram tudo. Eu gostava da voz dele, ficava de olho em tudo quanto é revista em busca de uma entrevista. Lia tudo o que via publicado sobre a banda, conversava com outros fãs e ia colecionando mais e mais informações. Eu gostava do nome da banda, gostava do jeito como ele dançava, achava o máximo ele fugir do padrão carinha bonitinha do mundo da música pop. Eu o achava atípico.

Ele mesmo disse que a Legião Urbana começou imitando bandas inglesas. Lembro-me de que um leitor certa vez escreveu para uma revista sobre música e se referiu a Russo como “Renato Mamãe-eu-quero-ser-morrissey-quando-eu-crescer Russo”. Morrissey é aquele que já foi vocalista dos Smiths, banda inglesa. Assim mesmo meu interesse continuava.

Quando criança, fiquei em Brasília seis meses, tratando de minha paralisia infantil. Muito depois, enquanto lia uma entrevista com Renato, descobri que ele morava lá na mesma época. Fiquei exultante. Eu já estivera “perto” dele, o que novamente ocorreria quando ele veio a Patos de Minas. Mas, perto, mesmo, foi no dia 21 de agosto de 1992, data de um show que a banda realizou em Uberlândia. Após averiguações, descobri em que hotel Renato ficaria. Aguardei por horas e horas sua chegada. Ele chegou, foi logo entrando, assinou algum papel e voltou para conversar com as pessoas que o aguardávamos, pois havíamos sido barrados. Quando ele já estava bem perto, o achei muito magro, e me surpreendi com sua estatura. Eu pensava que ele era alto.

Uma das perguntas que fiz para ele foi se ele se lembrava de ter tocado em Patos de Minas. Ele me olhou espantado e disse que sim. Perguntou-me se eu estivera no show. Quando eu disse que não, afirmando que na época eu tinha uns onze ou doze, ele disse: “Poxa, tô ficando velho”.

Não ficou. Vou sempre me lembrar dele. Por exemplo: o que me levou a ler Gabriel García Márquez foi uma entrevista concedida por Renato, em que ele elogiou o escritor colombiano; o primeiro disco comprado por mim foi o “Dois”. Faltando pouco dias para ele morrer, cheguei a ligar para a gravadora dele, tentando marcar uma entrevista. Não houve tempo.



AS VIVÊNCIAS




ASSIM COMO ERA ANTIGAMENTE
(2a quinzena de março de 1993)

Enquanto PC Farias compra Mercedes zerinho zerinho (isso até me lembra a Janis Joplin: “Oh, Lord, won’t you buy me a Mercedes-Benz”), o velho Fusca vem aí (Volkswagen – carro do povo), com a missão de possibilitar ao brasileiro o gostinho de adquirir seu carro zerado. E pelo visto, vai ser sucesso, pois algumas concessionárias já receberam pedidos, e algumas até já fizeram reservas para os ávidos clientes, afoitos para botar a mão no velho Fusquinha.

Nesse revival, os amantes do Maverick (se lembra?) já defendem sua volta, nem parecendo se incomodar com a fama de beberrão que o carro tem. E não para por aí. Tem tomado corpo um movimento que propõe a volta da capital do país para o Rio de Janeiro. João Ricardo Moderno (epa!), 39, professor de filosofia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, encabeça o movimento. É a onda retrô em voga. Assumindo a dianteira da vanguarda, a onda retrô.

Aqui em Patos, conversando com amigos, já encontrei quem defendesse a volta do Cine Garza, do Restaurante Tabu, dos bailes com música ao vivo no Mangueirão, da antiga rodoviária, de um velho ônibus que fazia a linha Patos/Aragão, das calças boca-de-sino, das bicicletas Phillips ou mesmo das novelas no rádio.

Nessa onda toda, até mesmo nossa trivial gripe já foi apelidada: gripe Fusquinha – vai e volta.

Os fãs pedem a volta dos Beatles, dos Sex Pistols, do Pink Floyd (tendo Roger Waters como vocalista) e do Genesis (no vocal de Peter Gabriel). Um dia desses, no Jô Soares Onze e Meia, um telespectador pediu a volta de Itamar Franco – para Juiz de Fora.

29/5/94
(1a quinzena de junho de 1994)

O ônibus estava lotado. Gente cansada. Festa na cidade. Fenamilho, e o cansaço de fim de festa era evidente no quase silêncio do ônibus que seguia pelas ruas, despejando lá e acolá um ou outro passageiro.

Chegada a minha vez, desci e comecei a caminhar pela fria madrugada. A neblina era densa, reduzindo drasticamente a visibilidade. Caminhando ligeiro, afoito para chegar em casa, olhei para o céu. Noite clara, de Lua e de estrelas no farto céu. Não havia vento, as folhas das árvores recebiam estaticamente o sereno da muito fria madrugada.

Devido à festa, o movimento nas ruas era intenso. Pessoas iam e viam e trespassavam a neblina, o grande acontecimento daquele dia. Neblina intensa, espessamente fazendo-se ser vista e impedindo-nos da correta visão das coisas próximas. E naquela hora, naquele dia, dei-me conta: diante de mim, uma das mais belas madrugadas de toda minha vida! As luzes da cidade incidindo sobre a eloquente neblina eram como a luz do Sol a incidir sobre espessa fumaça. O efeito era o mesmo, e observável em todas as luzes – nas dos postes e nas dos veículos. Por entre os galhos das árvores, luz e neblina formavam o mesmo espetáculo, e nas luzes dos automóveis, o mesmo se fazia colorido. Tudo era então fascinante. Para completar a imensa beleza daquela hora, a neblina não permitia muito enxergar, o que causava a sensação de se estar adentrando algo desconhecido, como se os próximos cem metros fossem algo definitivamente misterioso, propenso a nos revelar uma grande surpresa. E toda essa indefinição e incerteza contrastavam com a claridade do céu. Mistério no distante céu e nos próximos passos.
Foi uma belíssima madrugada.

TRÊS HISTÓRIAS
(30 de junho de 1995)

Certa vez, mostrei um texto meu para Manoel, um grande amigo. O texto se iniciava assim: Comecemos pelo número (...). Assim que leu as primeiras palavras, Manoel comentou que no texto em questão eu havia utilizado o plural majestático. Perguntei então o que era esse tal de plural majestático, sendo prontamente esclarecido. Quatro ou cinco dias depois deparei o seguinte trecho: “Acusou recebimento em carta formal ao presidente Mosquera, num tom de certa ironia, e ao acabar de ditá-la disse a Fernando, imitando o plural majestático” (...). Graças ao esclarecimento de Manoel, pude entender a frase, extraída do livro “O general em seu labirinto”, de Gabriel García Márquez, tradução de Moacir Werneck de Castro.

Tenho o hábito de ler paralelamente dois livros. E foi assim que iniciei as leituras de “Menos que um”, de Joseph Brodsky, e “Do amor”, de Stendhal. O livro de Brodsky contém ensaios. Nele deparei o seguinte trecho: “Não que os ajustes que ela estava fazendo não fossem suficientes (não eram!); mas com a insegurança própria de todo narcisista, a cidade começou a olhar cada vez mais absorta para o espelho que os escritores russos carregavam – para parafrasear Stendhal – pelas ruas, pelos pátios” (...).

Eu estava lendo “A mão do artista”, de W.H. Auden. Enquanto lia, ouvia rádio. Em determinado trecho da leitura corri os olhos sobre o nome Newton (no texto em questão, uma referência ao célebre físico). Nesse exato momento, ou seja, no mesmo instante em que li o nome Newton, uma estação de FM iniciou a execução da canção “Sky-high”, regravada por Newton. E pode parecer mentira, mas num outro dia, no exato momento em que eu relia o trecho acima, a mesma estação de rádio executou “Sky-high”, com Newton.

FAÇA-SE LUZ
(25 de agosto de 1995)

Era madrugada, aproximadamente duas da manhã. Havia dois livros e algumas folhas sobre a cama; as cobertas estavam desalinhadas, e para aumentar a desordem, minha roupa estava também jogada sobre a cama. Sentado à mesa de meu quarto, mexia em outros papéis, igualmente desorganizados.

Um rascunho, uma relida ou um livro velho. Ouvi um barulho. Parecia vindo de longe. Agucei a audição e deduzi ser um problema na rede elétrica. Gradativamente, o barulho ia se tornando mais audível. Assim que cessou, foi-se embora a luz de meu quarto.

Escuridão. Pensei se havia uma vela em algum lugar. Caso houvesse, como achá-la naquela escuridão? Dormir era mesmo o mais indicado. Lembrei-me de toda a bagunça sobre minha cama, mas no afã de dar logo um jeito na situação, levantei-me da cadeira. Pensei duas vezes antes de dar algum passo, tentando me lembrar se havia algo no chão. Mesmo não me lembrando, meticulosamente dei dois ou três passos, conseguindo colocar as mãos em alguma das cobertas. Primeiramente minhas mãos saíram à procura das folhas soltas; depois, dos livros; por último, das roupas. Tudo muito lento, muito milimétrico, mas consegui colocar a papelada sobre a mesa. Chegada a hora de esticar as cobertas, novamente lentidão.

Quando finalmente consegui me deitar, achei curioso a escuridão ter me causado tantos vacilos. O quarto é meu, eu o utilizo há anos, sei onde está tudo, e um corte de energia faz de mim um desnorteado em meu próprio quarto.

Adormeci. Ao abrir novamente os olhos, o sol brilhava. Olhei atentamente os móveis, os livros. Às claras, é tão óbvia, tão fácil a disposição das coisas. E eu que pensava que conhecia este quarto até de olhos fechados.

UMA NOITE INESQUECÍVEL
(8 de dezembro de 1995)

Era uma noite sem estrelas. Minha mãe, meu irmão e eu estávamos na casa de uma tia minha. Ao chegar a hora de irmos embora, lembro-me de que recebemos de minha tia a orientação de voltarmos para casa o mais rápido possível. Caso contrário, correríamos risco de vida. Entregou um embrulho à minha mãe, despedimo-nos rápido e pusemo-nos a caminho de casa.

Andamos poucos metros e logo perguntei para minha mãe o que estava embrulhado naquele jornal. Se ela respondeu, não me lembro. Em seguida, perguntei-lhe o motivo pelo qual era necessário estarmos em casa tão rapidamente, e ela disse que em pouco tempo alguns vaqueiros estariam percorrendo as ruas da cidade, e se encontrassem alguém fora de sua casa, a pessoa seria morta por eles. Segundo ela, estariam conduzindo uma manada. Quem ousasse ficar nas ruas, poderia também ser pisoteado pelos animais. Ou da manada ou dos vaqueiros não se escaparia.

Tanto me assustou o relato que, apesar de meus quatro ou cinco anos, eu me vi puxando minha mãe, quase que a obrigando a correr; ela, por sua vez, puxando meu irmão. De nada adiantava ela tentar me acalmar, afirmando que tínhamos tempo o bastante para que chegássemos vivos em casa. Eu só queria correr, estar em minha casa, estar vivo. Logo me cansei, mas a gana de me sentir seguro era maior. Corri muito, fiz com que corressem muito.

Vislumbrei nossa casa. Faltava uma esquina para que lá chegássemos. Foi então maior o meu ímpeto. Melhor escrevendo, meu desespero. As ruas desertas, a noite escura. Já havíamos caminhado uns quinze minutos. Só de imaginar que os vaqueiros pudessem surgir, vindos de uma outra esquina, consegui impor ainda mais ritmo à nossa pressa. Chegamos, abrimos o portão e entramos. Estávamos vivos. Dez minutos depois, os vaqueiros. Observamos pela janela semiaberta a algazarra que faziam. Gritavam muito. Com grande alvoroço conduziam a manada.

Muitos anos se passaram, e um dia perguntei para minha mãe se ela se lembrava daquele dia tenebroso. Ela disse que não, concluindo que provavelmente a história teria sido sonho meu. Perguntei para meu irmão. Ele também não se lembrava. Fiquei intrigado. Afinal, tudo parecia tão real. Será que tudo foi um sonho? Mas foi tão verdadeiro! E é estranho, pois, mesmo hoje, estando eu com vinte e cinco anos, aquela noite me parece imensamente real.

SÁBADO DE CHUVA
(22 de novembro de 1996)

Hoje acho que viver é bom. A chuva fina acalma, e ficar deitado o dia inteiro não seria problema. O tempo cinza e úmido é um convite à introspecção: levanto-me tranquilo após sonhos reveladores. Meu corpo está descansado, aceito-me sem restrições. Encontro-me além das imperfeições de toda espécie, de modo que ninguém nem nada se torna empecilho para que eu possa naturalmente ouvir o som da chuva mansa. 

Enquanto preparo algo para comer, penso num livro que estou lendo. A história, então, mais ainda me envolve. Penso no autor, no trabalho árduo certamente empreendido para que a obra se materializasse. Lembro-me de outros livros.

Eu queria que eles soubessem que em algum lugar num dia de chuva paciente alguém se lembra deles, gostaria de dizer pra eles o quanto os admiro, o quanto de contribuição eles têm para que neste momento eu me sinta mais seguro, para que eu não me sinta em vão.

Terminada a refeição, reparo nos objetos da cozinha, nas paredes que já perderam a alvura. Caminho até a sala para ouvir algo. Ligo o aparelho de som e o telefone toca. Converso sobre pára-quedismo e penso na possibilidade de achar coragem para um salto. Chego ao quarto, visto uma camiseta e vou até o portão para ver pessoas.

Algumas delas estão nos bares próximos à minha casa. Parecem satisfeitas. Observo as que passam. Dessas, algumas há muito passam por aqui. Não sinto falta delas: apenas, ao vê-las, lembro-me de que há anos estão indo ou vindo pelo mesmo caminho: há anos pode haver alguma delas a pensar que me viu crescer.

Lembro-me de que aguardo uma carta. Abro a caixa do correio e a encontro vazia. Segunda-feira, quem sabe? Penso na futura remetente e sinto saudade. Acho legal me considerar o destinatário, o destino dela. Quando a carta vier, provavelmente enviarei essas considerações para meu destino. Fecho a caixa e volto para a sala.

Daqui a pouco mais de duas horas estarei trabalhando; planejo ir ao cinema após o trabalho; pretendo ir a um baile após as onze. Entre as nove e as onze não sei o que fazer.

Tomo um banho gostoso e saio adiantado para trabalhar. Vou de ônibus, e o veículo está praticamente vazio. Chego ao centro da cidade, passo num bar e como mais. Vou satisfeito, em paz.

“UMA BREVE HISTÓRIA DO TEMPO”
(3 de janeiro de 1997)

“O tempo passa sem que o sinta a gente”.

A frase de Dante (1265-1321) parece ter sido escrita ontem. Há uma canção da banda gaúcha Nenhum de Nós chamada “Sobre o tempo”. O Pato Fu tem uma canção com o mesmo título. O Pink Floyd tem uma chamada “Time”, também o nome da famosa revista. Há o tempo de Proust, que assim inicia, segundo a tradução de Mário Quintana, sua obra “Du côté de chez Swann”: “Durante muito tempo, costumava deitar-me cedo”. Em Thomas Mann, segundo a tradução de Herbert Caro, no livro “A montanha mágica”, há o seguinte trecho: “Pode-se narrar o tempo, o próprio tempo, o tempo como tal e em si?”. De acordo com Einstein, “o tempo é relativo e não pode ser medido exatamente do mesmo modo e por toda a parte”. No Eclesiastes está escrito: “Tudo o que existe debaixo dos céus tem o seu tempo”.

Todo esse papo sobre o tempo fez com que eu me lembrasse de uma frase dita por um locutor da rádio Bandeirantes, chamado Valmir Jorge: “O tempo passa e a gente nem vê”. A frase simples, dita por ele quando o mesmo fazia um programa de madrugada, me marcou, sem que eu saiba a razão pela qual jamais me esqueci dela. Eu era, na época, ouvinte assíduo do programa dele, por admirar muito o trabalho de Valmir Jorge. Quando ouvi pelo rádio a frase já mencionada, cheguei a repeti-la em voz alta, enquanto pensava sobre ela. “O tempo passa e a gente nem vê”. Ela continua atuando em mim. Quanto mais o tempo passa, mais significativa ela vai se tornando.

Aos onze anos consegui meu primeiro emprego. Trabalhava numa fábrica que empacota farinha e fubá. Trabalhei lá por muito tempo. Quatro anos ou mais. E trabalhava o tempo todo com o rádio ligado, ouvindo música o dia inteirinho. Os colegas de trabalho também gostavam, e de vez em quando até arriscávamos cantar algumas delas. Foi nessa época que comecei a perceber como sou desafinado. Foi nessa época que comecei a me interessar pela história das bandas, comecei a ler sobre música.

Uma canção muito executada, recordo-me, era aquela “Muito estranho”, cantada pelo Dalto. Se alguém quisesse ouvi-la, bastava ligar o rádio que lá estaria ele cantando o famoso refrão “cuida bem de mim”. Como não podia deixar de ser, o tempo foi passando, passando, até o dia em que eu não mais trabalharia lá. Consegui um outro emprego, saí dele, fui para um outro, depois para um outro e assim por diante. Enquanto isso, eu via gente crescer. Hoje, muitas meninas que eu tenho visto desde quando eram bebês, estão crescidas, viraram mulher. (Alguém aí se lembrou do Paulinho Nogueira?)

Desse monte de gente que vi nascer e crescer, há um menino que hoje é maior do que eu. O nome dele é Edgard, e ele é meu irmão. Hoje em dia, quando o observo, penso que os pais devem sentir algo similar quando reparam em seus rebentos.

Há uns quinze dias o Edgard me telefonou, enquanto eu trabalhava, para me pedir a música “Muito estranho”. O ano passa e a gente nem vê. “Pois mil anos, aos olhos de Deus, são como o dia de ontem que se foi”.

PAI
(4 de agosto de 1997)

“Todas as famílias felizes se parecem entre si; as infelizes são infelizes cada uma à sua maneira”. Assim Tolstoi começa “Ana Karênina”. Do arrebatador começo, não me esqueço, e quando a Simone, redatora de O Tablóide, pediu-me para escrever uma crônica sobre o dia dos pais, logo me lembrei da frase de Leon Tolstoi.

Não sou pai, e toda ideia que eu tiver sobre a paternidade virá de minha experiência de 26 anos como filho. Certamente isso explica o fato de eu apelar para citações ao escrever acerca do dia dos pais. O que vier, se é que virá, será a visão de alguém que se vale de sua imaginação e não tem conhecimento algum do que é ser pai. “Se meu filho nem nasceu eu ainda sou o filho”, de acordo com a música do Ira!.

Há um filme chamado “Minha Vida”, em que Michael Keaton interpreta alguém sabedor de sua morte que ocorrerá muito em breve. Prestes a se tornar pai pela primeira vez, ele passa a registrar imagens suas para que seu filho possa vê-las, para que a criança possa saber como era o pai dela. Paralelamente, ele, o personagem de Keaton, revê a relação com o pai, assume que entre os dois há coisas que não foram resolvidas, foram adiadas, caladas – o que gerou um distanciamento e uma certa frieza entre os dois. Quando se vê perto da morte, o personagem de Keaton consegue quebrar o gelo, aproxima-se de seu pai ternamente, disposto a perdoar o velho; ele consegue superar velhas mágoas, assume os defeitos seus, aceita os dele.

A carapuça serviu direitinho. Saí do cinema pensativo, refletindo em minha condição de filho. (Meu pai acabou de chegar.) Pensei em adotar uma atitude semelhante à do personagem do filme em minha vida. Até hoje isso não ocorreu. Tenho medo de, numa bela manhã, perceber que não tive coragem o bastante para quebrar o gelo; verificar que já é tarde demais. Eu agradeço a vida que tenho e as chances que ele me deu, embora ele não saiba disso.

Com relação à árdua tarefa daqueles que se propõem a ser pai, cito Artur da Távola, de sua “Oração do Pai Contemporâneo”: “Às vezes, Pai, penso em não interferir. Deixar o que há neles de seu, de atávico, hereditário e intransferível ir ensinando. Mas venho de um tempo em que ficou moda deixar a criança entregue a si mesma ‘para não frustrar’. Vi esses meninos ‘sem frustração’ crescidos, afundando-se na desagregação, berrando solidão, e o ‘me protege, pai’, ‘me protege, mãe’, disfarçados em agressividade, autodestruição e negação sem afirmação compensatória”.

BREVÍSSIMO ROMANCE
(13 de outubro de 1997)

Quando nasceu, ela era a queridinha da família, paparicada até pelo papagaio, que não enfrentou dificuldades ao aprender a falar o nome dela. Cercada de cuidados mil, mas sempre frágil, Ana Rita por pouco não vem a saber o que é ser adulto e suas implicações, por causa de inúmeras doenças que faziam com que sua infância fosse uma sucessão de corredores de hospitais e correrias pela madrugada. Os pais já não sabiam mais o que fazer, mas faziam de tudo.

A filha chegou frágil à adolescência. Embora esperta, não conseguia não se achar desprovida de atrativos. Tornou-se livresca, ensimesmada. Quis tornar-se escritora, e logo arriscou a feitura de um romance que contava a história de um homem que jamais conseguira deixar de amar sua primeira professora. Enquanto chafurdava nas palavras, Ana brilhava na escola e não se aventurava num relacionamento.

Terminado o romance, já com seus 19 anos, ela não teve coragem de mostrá-lo a ninguém. Guardou-o na gaveta durante um pouco mais de um ano, depois o tornou cinzas, enquanto cursava mecatrônica. Após 2 anos, abandonou o curso, foi morar na casa de um tio, no interior do Paraná. Ficou lá 8 meses, e lá sentiu-se cortejada pela primeira vez. Por um momento, quase se rendeu aos galanteios de um jovem do local. Ao ser pedida em namoro, ela disse não, esmagada por um milhão de dúvidas. Por pouco ele a veria chorar, e chorar muito, após se trancar no quarto, culpando-se. Voltou para a casa dos pais, arranjou um emprego. Trabalhava num supermercado. Cabulava as tradicionais festinhas dos colegas de serviço. Nas horas em que precisava desabafar, pensava em escrever coisas num diário, mas tinha medo de ele cair em mãos outras após sua morte. Quando a barra pesava, ela colocava “Alucinação”, do Belchior, num volume alto e cantava junto, o que a tornava melhor.

Voltando do trabalho, ela passou numa loja e comprou um vestido que há muito vinha paquerando. Jurou para si mesma que a estreia seria em grande estilo, numa das sessões cinematográficas do fim de semana, ainda que estivesse desacompanhada. Sorriu consigo e apertou o passo. Na calçada, um carro sem governo a atropela. Hoje, ela não existe mais.

BANCO
(24 de janeiro de 1998)

Igualzinho a uma cobra serpenteando dentro do banco, a fila dava voltas, castigando os cidadãos. Nessa ocasião, eu era um dos castigados. Para amenizar o drama, levei um livro. Ter algo para fazer ou algo em que pensar; é uma boa fórmula para se distrair numa fila de mais um banco que não parece andar.

Esqueci-me do relógio e da impaciência. Nem reparei na chuva que começara a dar uma pausa no verão. Cinco ou seis pessoas seriam ainda atendidas antes de mim. Dei um tempo na leitura e comecei a me ambientar com meus companheiros de fila. Atrás de mim, uma senhora gorda e baixa que de cinco em cinco passos reclamava da lentidão. O próximo era um rapaz que não mais suportava o cansaço. Às vezes ele quase dormia. Depois dele, havia uma loirinha, um metro e sessenta, magrinha, calça jeans, camiseta branca com mangas dobradas, mascando chiclete. “Uma gatinha”, pensei. Pena que essa impressão seria ofuscada por outros fatores.

Esses eram meus vizinhos. Do momento em que abandonei a leitura até a hora em que eu seria atendido, poucos minutos se passaram. Esses minutos foram o bastante para haver irritação. A loirinha, pouco se importando com as voltas e revoltas da fila, ia abarcando todos os serviços bancários requisitados por suas amigas. A mão, já pequena, quase não conseguia reter tantas notas, cheques e papéis, separados por dedos curtos. Cada nova amiga que aparecia fazia a senhora próxima a mim mostrar sinais de indignação, não ainda ditos para a “benevolente” jovem. Também irritado, decidi não falar nada. Não por vislumbrar a chance de alguma futura paquera.

Chegada a vez de a menina ser atendida, logo após o sonolento foi chamado por outro caixa. Fiquei aguardando. Segundos se passaram. Sem jeito, a loirinha gesticula para uma de suas amiguinhas. Parecia ter havido algum problema com os papéis desta. A senhora não se fez de vexada: “Pera aí, isso eu não admito. Ela já pegou um monte de serviços das amigas dela. Se não tá dando certo, a amiga não tem o direito de resolver o problema agora. Ela tem que entrar na fila”. A loirinha ficou ainda mais branca. O caixa olhou para a senhora e aprovou seu protesto. Com o rabinho entre as pernas, veio a outra. Pegou a papelada e saiu de cabeça baixa. Ao sair, a loirinha fez questão de passar pela reclamante e dizer: “A senhora ainda vai precisar de mim”. Coberta de razão, pasmada, a senhora bradou: “Não é o cúmulo?”

ASTROS E ESTRELAS
(1º de agosto de 1998)

“Minha velha, traga meu jantar: sopa, uva, noz e pão”. É, é isso mesmo. Aquela frase que ensinavam (ensinam?) no primário para facilitar a memorização dos nomes dos planetas. Pelo menos comigo o macete foi eficaz. Até hoje sei de cor os nomes. E conversando com amigos, pude verificar que ela é bastante conhecida por aqueles que têm mais ou menos a minha idade.

Basta o comentário sobre a tal frase que nos ensinavam no primário, para que decorássemos os nomes dos planetas, e as pessoas já a emitem sem vacilos.
Frequentemente podemos ler por aí que os cientistas estão sempre descobrindo que o universo é maior, bem, bem, bem maior mesmo do que nossas notícias costumavam dar conta. Quando a gente começa a se acostumar com as recentes medidas, vem um outro dado para ampliar tais medidas em vários anos-luz; quando a gente começa a assimilar esse novo espaço, uma nova galáxia é descoberta. E o curioso é que nem isso nos convence de nossa pequenez diante de tudo. Continuamos agindo como se fôssemos nós os reis do universo, comandantes absolutos de uma nave que nem conhecemos inteiramente, munidos de nossa prepotência, de nossa arrogância. Fiquei pensativo quando vi recentemente um documentário intitulado “Fogo do céu”. O documentário trata da possibilidade de a Terra ser atingida por um corpo que esteja viajando numa boa pelo universo. Se o bólido for do tamanho de um campo de futebol (pequenininho, portanto), já vai causar um estrago danado. Há um filme em cartaz que trata do assunto. Não o vi ainda.

Por falar em filmes que tratam do universo e coisas afins, dos filmes que mostram seres alienígenas que chegam por aqui, gostei muito de “Homens de preto”. Vi nele uma grande verossimilhança. Há o senso de humor, e não somente por parte dos terráqueos. Outra coisa de que gostei no filme foi o fato de que os alienígenas são... tipicamente humanos no comportamento; eles também têm suas tretas e mutretas, assim como nós. (Pensei agora na possibilidade de estar sendo lido por um deles.) Universalidade é isso. Genial também como mostraram a grandeza e a grandiosidade do espaço, no finzinho do filme.

Enquanto eu viver, vou ficar sabendo que o universo é maior e maior. Isso faz cair em desuso a frase que aprendemos no primário. Ela é pequena para comportar as iniciais dos nomes dos planetas que estão por aí. Precisaríamos de todas as palavras do português que já existiram, que existem e que existirão. Como seriam insuficientes, teriam de ser exaustivamente repetidas. A frase não caberia nos livros, não caberia nos CDs. E teria de ter reticências, reticências do tamanho de um universo...

LÍVIO, LUZIA, MAGALY, VILMAR
(12 de setembro de 1998)

Tudo começou quando eu procurava dois textos de Antonio Maria. Revirei e revirei velhas pastas. Não achava os textos, mas deparava coisas que nem me lembrava mais de ter. Algumas, reli. Então, justamente quando eu já estava quase desistindo, encontro uma velha fotografia. Achei tão bom revê-la que quase decidi deixar para uma outra ocasião os textos de Antonio Maria. Entretanto, coloquei a foto sobre a escrivaninha e voltei à caça das crônicas. Achei-as. Satisfeito, as reli. Além dessa pequena parte da obra dele, conheço uns trechos seus publicados numa crônica de Luis Fernando Verissimo. Terminada a releitura dos textos de Antonio Maria e da crônica de Verissimo, apanhei novamente a foto.

Um tom meio amarelo. Não sei se foi feita assim ou se é obra do tempo ou as duas coisas. Eu e mais três na foto. Éramos colegas de sala, e naquele momento estávamos na fazenda de um outro colega. Nossos corpos eram ingênuos, nossas caras ainda não haviam crescido. 

Releio para perceber o que estava nas entrelinhas e não percebi, talvez por falta de maturidade. Faço agora a releitura de uma imagem. Assim como reler nos ensina, sinto que há coisas na foto que ficaram para trás, sem que eu tenha conseguido as revelar.

Fotografias. Dão um clique na saudade e iluminam o passado com seu flash. E estou reparando... Eu ouço risos, me lembro de gestos, me recordo de falas. Todos vêm do passado, de um passado estático sobre minha escrivaninha. Vejo o passado e volto para o presente.

Nossas diversões são outras, nossos caminhos não se coincidem mais, nossa distância vai aumentando. Dou uma última olhada na foto. Queria sentir saudade também do(a) fotógrafo(a). Embora tenhamos estado frente a frente, nem a foto (espelho que reflete sempre o mesmo instante) nem a memória o(a) trazem. Numa dessas andanças vou me lembrar dele(a) ou mesmo estarei em sua companhia – talvez sem suspeitar ser ele(a) quem desencadearia minha saudade.

Já é hora de guardar o passado de novo. É madrugada; devo dormir. Daqui a pouco terei de estar de pé. Largo a foto, mas o pensamento está no passado, tirando fotografias. Não muito nítidas, evocando acontecimentos fora de ordem cronológica, evocando cenas fugazes. De um pulo só passo para o futuro, recomeço com os velhos ideais, tirando fotografias. Não muito nítidas, evocando acontecimentos fora de ordem cronológica; evocando cenas fugazes.

SE QUISER, EU ESQUENTO
(7 de novembro de 1998)

Ele saiu do trabalho e foi pra casa. Lá chegaria e estudaria um pouco, pois haveria prova de português na escola. Despreocupado, foi rapidamente percorrendo o caminho que o levaria a seu destino. Ao passar em frente a uma outra escola, olhou para o prédio, coisa que tinha o hábito de fazer, por considerar a sua fachada extremamente rude. Ele não se cansava de reparar naquela rudeza.

Chegando, ninguém em casa. Ligou o rádio e foi para a cozinha, onde fez um rápido lanche. Enquanto comia, seu irmão chegou. Saudaram-se com as usuais “ofensas”. Deixando seu irmão na cozinha, foi para o quarto e apanhou a apostila, para uma leitura na matéria. Deu uma olhadela no conteúdo e achou por bem tomar banho antes do estudo.

Assim que o banho começou, sua mãe chegou. Ela se aproximou da porta do banheiro e perguntou para o filho se ele queria jantar. Ele disse que não, e logo constatou algo diferente. Pela primeira vez sua mãe não havia dito que se ele quisesse ela esquentaria a comida. Aquilo era de se espantar. Ele tentou buscar um momento em que sua mãe não havia lhe dito que, se ele quisesse, ela poderia esquentar a comida, mesmo após seu não. Buscou com atenção esse momento, mas não o achou. Esqueceu-se da singularidade da ocasião, terminou o banho e deu uma estudadinha.

No momento em que saiu, ninguém em casa. Ele trancou as portas, o portão e partiu, não se esquecendo, posteriormente, de olhar uma vez mais para a rude fachada. Quando chegou ao ponto do ônibus, uma colega de sala estava estudando. Ele a cumprimentou rapidamente e a abandonou com as palavras dela. Chegou à escola, foi para a sala e aguardou a professora, que em poucos minutos chegaria, trazendo uma prova que ele não achou difícil, o que o deixaria com um bom espírito até o término da aula. Antes de seu retorno para casa, ele e mais três colegas de sala passaram num bar e tomaram três cervejas. No caminho de volta, enquanto olhava para a rude fachada, lembrou-se do ocorrido no momento em que ele estava no banheiro – pensamento que logo ficou para trás, tal qual a fachada.

Quando se aproximava de casa, faltando uma esquina, sentiu logo uma vontade de correr, movido pelo que vira. Rendendo-se ao impulso, disparou. Todo aquele movimento... Quando chegou, teve a confirmação do pensamento que tomara conta de sua vida enquanto percorria aquela esquina que faltava: sua mãe havia morrido.

SEDUÇÃO

O dom sempre me intrigou. Dom exercido é sempre fascinante. Ainda que algum instrumento musical agrade mais do que outro, qualquer instrumento bem tocado é sempre bom para a alma. Quando as coisas não vão bem, preciso conviver com dons. Quando as coisas vão bem, preciso conviver com dons.

Dom, ninguém nem nada tira. Nem a maldade do presenteado nem a falta de interesse da pessoa por seu dom conseguem bani-lo. Ainda que não seja cultivado, ainda que desprezado ou repudiado, o dom resiste. Há dons tão intrigantes, tão fortes, que prescindem de prática, de treino, de disciplina; podem ser acionados a qualquer momento, e é como se fossem lapidados, como se recebessem totais dedicação a atenção de quem os tem.

É verdade; há o esforço, que de fato pode realizar feitos, milagres. Segundo Einstein, Deus não lhe havia dado nenhuma inteligência superior, mas a teimosia de um burro. Há exemplos formidáveis de pertinácia; exemplos que inspiram, que incentivam, que estão mais ao alcance da maioria das pessoas. Caso também nos esforçássemos, formidáveis seríamos.

O dom conquista, é sedutor. Experiência curiosa é ser seduzido pelo dom de uma pessoa, sentir-se atraído por ela ao se estar diante de seu dom. E dependendo do dom, estar diante dele é estar diante de quem o exerce (melhor ainda). Pode-se ser seduzido pela dançarina que está na tela do televisor, mas o bom é estar por perto.

Cada dom é um. No caso da dançarina, por exemplo, contemplar seu dom é contemplar seu corpo. Pode-se apreciá-la à distância por intermédio de um meio eletrônico, mas apreciar o resultado de seu dom é olhar para seu corpo – o que não ocorre, por exemplo, quando se contempla o dom de quem pinta. São poucos os que têm o privilégio de estar diante do exercício desse dom, mas a consequência dele não depende da obrigatoriedade da presença corporal do pintor. 

Dom seduz. Lembrei-me de uma canção que escutei na adolescência. É que seu título traduz bem essa ideia de que o dom pode ser sedutor. Esqueci-me do nome da banda (caso você saiba, conte-me); o da canção é “Didn’t know I love you till I saw you rock ‘n’ roll” (algo como “Não sabia que te amava até te ver dançar rock ‘n’ roll”).

UM TRAÇO DE INSEGURANÇA

Eu acho que já escrevi o que estou prestes a escrever. Posso ser acusado de plagiar a mim mesmo; posso ser acusado de estar plagiando alguém por aí. Correr o risco? Não sei se deveria. Mas aí vai.

A gente se denuncia o tempo todo. (A sensação de que já escrevi a frase que está antes da abertura do parêntese é mesmo tão forte que até me ocorreu a ideia de que no suposto texto anterior eu havia escrito nós nos denunciamos o tempo todo. Quase não há dúvida – eu já escrevi essa frase antes, ou uma muito parecida. Também acho que já escrevi a próxima, em que penso agora e que virá assim que eu fechar o parêntese.) Mas não sabemos ler o que somos e o que os outros são. Somos maus leitores de nós mesmos e dos outros. Aprendemos a enganar os outros; aprendemos a nos enganar. (Termina aqui a sensação de que estou escrevendo algo já escrito. O resto que vem por aí deve ser coisa nova.) Disfarces, máscaras, traços, copos de cerveja ou roupa bonita. A gente se esconde. Esconder-se é só um outro modo de se revelar.

Sempre que termino um e-mail ou sempre que escrevo meu nome num papel, passo um risco por baixo. O motivo por que faço isso é bobo, prosaico.

Certa vez, alguém fez comigo um desses testezinhos de psicologia. Eu ainda era menino. Talvez adolescente. Uma das tarefas do tal teste era desenhar uma árvore. Desenhei a árvore e a mostrei – não me lembro para quem. Diagnóstico do “especialista”. “Repare: sua árvore está suspensa, pairando, sem uma base para se apoiar. Isso mostra que você é inseguro” (sic). Achei um absurdo. Argumentei que mesmo alguém sendo inseguro, não era a falta de traço por baixo de um desenho de uma árvore que denunciaria essa insegurança. A pessoa não concordou. 

Então, pensei comigo: “Não há de ser nada não. Quando alguém vier com esse ‘teste’ de novo pro meu lado, finjo que não o conheço e vou logo meter um traço debaixo da árvore ou de que desenho for”. Eu sabia que passaria um traço sem exageros, para que parecesse mais convincente, espontâneo. Anos se passaram. Enquanto a chance para a revanche não chegava, fui sendo submetido a outros testes. Num deles, tive de fazer um desenho de acordo com as especificações da professora, que ditou: “Olhos grandes. Pernas curtas. Rabo comprido”... Eu não atinei que as características pertenciam a um único ser, de modo que fui desenhando isoladamente as partes da criatura, separando-as em pequenos quadrados. Diagnóstico: “Você se sente dividido, não sabe o que quer. Quer abarcar tudo e realiza pouco. Ora está aqui, ora ali. Ora quer isso, ora quer aquilo”. Certíssimo.

Entretanto, tive mesmo a chance de me “vingar”. Diante daquela mesma tarefa, a de desenhar uma árvore, coloquei um traço debaixo dela. Diagnóstico: “Este traço debaixo da árvore mostra que você é firme, decidido”. Contei então o ocorrido no teste da árvore anterior, e completei dizendo que se o teste fosse mesmo tão eficaz, o analisador teria percebido meu engodo; se o teste fosse mesmo eficaz, o traço teria, de algum modo, denunciado a mentira. Faltou competência para o “analista” ou para o “teste” ou para ambos. Com um simples traço, fingi uma segurança que eu não tinha na época e que não tenho até hoje – sou mesmo muito inseguro. O tracinho é só para fingir que sou seguro. Assim sendo...
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DE GRÃO EM GRÃO

Não posso reclamar. Tenho a chance de aprender a cada instante. Talvez devido a uma certa predisposição para tirar de tudo uma lição. Não tenho queixa disso, pois a vida me oferece, todo dia, chances muitas de aprender muito. Da vida, nada a queixar; de mim mesmo, algumas queixas.

Minha coxa esquerda está muito cansada. Há uns seis meses, após tropeçar em meu próprio pé, caí. Ainda em processo de queda, bati um músculo da perna esquerda na quina afiada de um móvel antigo. Precisei procurar ajuda. O médico me atendeu e disse que, mesmo após a melhora, eu teria de procurar fazer sessões de fisioterapia, para que a musculatura da perna fosse revigorada. Somente agora comecei a fortalecer a tal da perna.

A fisioterapeuta passa os exercícios. A princípio, fáceis, tranquilos. Mal os comecei, e uma pressa de ir embora já começava a formigar: impaciência estúpida. Foi quando me dei conta do quanto vivo mal, com pressa, sem um mínimo de tempo para me dedicar principalmente às coisas que me fazem ou me farão bem. Ela ia passando os exercícios. O que estava moleza foi ficando difícil, pesado. As tarefas tinham de ser cumpridas com calma, com ritmo. Quanto mais cansativos iam se tornando os exercícios e quanto mais tempo eu ia tendo de passar com eles, mais eu ia sentindo que aquilo era bom para mim. Aquela pausa no correr do dia e aqueles minutos que eu tive de dedicar às atividades da fisioterapia iam me mostrando, mais uma vez, que meu jeito de viver não é bom para mim.

Triste paradoxo: muitas vezes me entrego a quem ou a algo que nem me faz tão bem assim, sem raramente me dedicar ao que será bom para mim. E o pior: tenho tempo. Se eu fosse uma daquelas pessoas que trabalham mesmo o dia inteiro e não têm tempo nem para dormir direito, eu até me daria um desconto. Mas não: tenho tempo. Se não de sobra, é tempo o bastante para que eu seja maior. Isso deveria fazer com que eu tomasse vergonha na cara e mudasse de vida. 

Eu já vinha, de alguns dias para cá, pensando no assunto. Quantas coisas faço para os outros, para as obrigações burocráticas... Quantas vezes saio de casa sem nem escovar os dentes direito... Quantas vezes me alimento mal porque tenho de correr para não ser repreendido pelos patrões... Isso tudo faço, é claro, para que eu possa sobreviver, mas o grande benefício dessas correrias diárias não vai para mim. E, no tempo que me resta, corro para outros lados, dedico-me à minha preguiça e à minha letargia, sem ter comigo a mesma disciplina que tenho para com todos os outros compromissos.

Chega disso! Preciso ser disciplinado para aquilo que diz respeito a meu engrandecimento. O que já vinha se insinuando ganhou vigor graças ao primeiro dia de exercícios na fisioterapia. Lição que veio em boa hora. Com vagar, rigor, calma e paciência muito pode ser feito. Chega de menosprezar a força do hábito. De grão em grão a galinha enche o papo. O que está cheio é meu saco. Passei a vida inteira tendo disciplina em coisas que pouco acrescentaram em minha vida. Dispêndio de tempo e de energia em coisas que só me causaram cansaço, decepção e irritação. Burrice. Vou dedicar um tempo a mim mesmo. Vou me envolver com o que gosto e mexer com aquilo que sei que me fará melhor, mais vasto. Tenho tempo. Não posso deixar de correr para os outros. Mas vou aproveitar para mim um tempo para que eu fique sem correria. Terrível constatar ao fim do dia que corri o tempo todo, fiz tudo com pressa e não fiz nada de útil para mim. Preciso me livrar dessa incompetência, desse descompasso e dessa desorganização que estão gradativamente me destruindo.

EXCELENTE!
(13 de setembro de 2008)

Frequentemente nos queixamos, com muita razão, da precariedade e da burocracia dos serviços públicos. São na maioria das vezes ineficazes, pachorrentos e nos tratam como se estivéssemos atrapalhando a existência dos funcionários, como se fôssemos um incômodo para o bem-estar deles, que, a rigor, são mantidos por nós, por intermédio dos impostos e taxas que pagamos.

Mas, um dia desses, tendo saído logo pela manhã, a fim de resolver pendengas burocráticas, tive de ir a um desses serviços públicos. Já cheguei armado e fazendo cara de quem deixa bem claro que estar ali não era nada bom. Como sempre, fila, mas não demorei a ser entendido. Não tive nem tempo de começar a pensar na vida e no que devo fazer para que tudo seja diferente. Eu já estava com a senha de atendimento em mãos; em menos de dois minutos eu seria chamado.

Quem me atendeu foi um senhor. Já calejado e ciente de que a burocracia impede o bom senso na maioria das vezes, após corresponder ao “bom dia” do funcionário, fui logo adiantando que talvez eu não estivesse no lugar certo para resolver o problema com as faturas. Mas o atendente, após me perguntar de que conta se tratava, foi logo dizendo que eu estava no lugar certo.

Revendo-o agora, creio que deve ter uns cinquenta anos. O sorriso com que me recebeu era cordial mas não era exagerado. Por isso mesmo, convenceu. Entreguei-lhe os comprovantes de pagamento de contas que estavam atrasadas e ele começou a digitar. Digitava e olhava para a tela, digitava e olhava para a tela. Eu tentava ler em seu rosto algum problema, alguma irregularidade com os comprovantes. Mas ele continuava digitando. Num dado momento, perguntou-me alguma informação técnica sobre minha mãe, pois os documentos estavam no nome dela. Como eu havia pedido a ele segunda via de um documento, ele me disse que tal segunda via não seria necessária, pois a conta já havia sido paga. E mais: acrescentou que uma outra conta, paga momentos antes, também há havia sido quitada. Por fim, esclareceu que eu não precisava me preocupar, pois o dinheiro seria restituído por intermédio de créditos (acho que foi essa a palavra que ele usou).

Enquanto o senhor digitava, reparei que, sobre o balcão, havia um mecanismo vertical, de uns quinze centímetros, que parecia proporcionar ao cliente a possibilidade de opinar sobre o atendimento que tivera. Havia quatro ou cinco botões, um de cada cor. Sob cada botão, havia uma palavra. Elas iam de uma gradação que começa com (salvo engano) “excelente” e vai até (salvo engano) “péssimo”. Deduzi que o dispositivo estava ali para que pudéssemos de fato avaliar o modo como havíamos sido tratados, como havia sido o serviço etc. Por dois ou três instantes, senti-me tentado a apertar o botão “excelente”, mas não o fiz por temer que talvez essa não fosse a utilidade do mecanismo. Também por dois ou três instantes, pensei em perguntar a serventia da maquininha, o que não fiz.

No término do atendimento, o funcionário virou o monitor do computador para mim e me mostrou a prova de que duas das contas já haviam sido pagas. Trocamos algumas palavras e fui embora. No caminho de volta para casa, fiquei remoendo meu vacilo, meu pestanejar: eu deveria ter perguntado a utilidade do equipamento. Caso servisse para o que eu tinha pensado que servia, eu poderia ter opinado sobre o atendimento que recebi. Nem tanto pela repartição, mas pelo tato daquele funcionário. Voltei para casa com a sensação de que eu perdera a oportunidade de exercer algo de bom em mim.

A TROCA DA PASTA DENTAL
 (27 de setembro de 2008)

Era uma tarde fria, aproximadamente 17h45. Disseram-me que o supermercado ficaria aberto até as 18h. De moto, eu chegaria até lá sem a necessidade de correr. Ainda assim, uma preguiça domingueira insistia em me segurar em casa. Mas se eu não fosse, continuaria com fome, pois não sei cozinhar. Como o corpo é quem manda, peguei a moto e fui ao supermercado.
No caminho, o tempo nublado dava ao domingo um ar calmo. As ruas não tinham pressa. Ao chegar ao estabelecimento, o movimento já era escasso. Eu teria uns sete ou oito minutos para fazer as compras. A princípio, cheguei a pensar que eu atrasaria o término dos trabalhos da equipe do local, pois eu não estava achando rápido as poucas coisas de que precisava. Terminada a coleta, consultei o relógio; eu teria uns cinco minutos para chegar ao caixa, pagar e vir embora. Tempo de sobra, pois havia mais funcionários do que clientes.

Já estou retirando as mercadorias do carrinho. Antes, eu havia procurado por uma determinada marca de pasta dental, que não estava na prateleira. Uma funcionária me explicou que a marca estava na parte da frente do supermercado. Enquanto a atendente ia passando os produtos pelo leitor de códigos de barra, perguntei para ela se o pagamento da pasta dental deveria ser feito ali ou onde eu deveria pegá-la.

O pagamento deveria ser ali mesmo. Fui até o local e apanhei a pasta dental. Voltei para o caixa. Por falta de troco, a funcionária que estava me atendendo pediu a uma outra que fosse conseguir moedas. Enquanto esta se distanciava, a atendente comentou comigo que a pasta dental que eu queria teve de ser mudada de lugar porque estava se tornando comum a troca de pastas dentais: o freguês pegava uma pasta dental cara e a colocava dentro da caixa de uma mais barata. Na hora de pagar, levava para o acerto a caixa da pasta dental mais barata, que continha, na verdade, a mais cara. Em virtude disso, a pasta dental mais cara passou a ser vendida na parte da frente do supermercado, pois ela é agora entregue ao freguês por uma funcionária.

Aguardando ainda a vinda do troco, eu e a atendente começamos a conversar sobre a prática das trocas. Ela disse: “Não entendo esse povo que rouba essas ninharias. Meu pai me dizia que a gente nunca deve roubar nada – nem se for pra ficar rico. O que sei é que isso que o meu pai falava ficou em mim. Sempre que vejo alguém roubar alguma coisa, lembro o que meu pai falava. Ele já morreu”. Talvez percebendo meu interesse na conversa, ela prosseguiu: “O pior é que essas pessoas que roubam mixarias são aquelas que depois falam mal dos políticos. São as primeiras a apontar o dedo e falar que os políticos são desonestos. É claro que os políticos roubam, todo mundo sabe disso, mas não são os únicos. Numa boa? O cara que troca uma pasta dental num supermercado e vai embora se achando o máximo é igualzinho aos políticos corruptos que ele se sente no direito de criticar”. O tom era calmo, o que, em contrapartida, acabava conferindo mais densidade ao que ela falava. “O brasileiro não consegue olhar para o próprio umbigo. Acho isso muito esquisito. O sujeito leva vantagem em um real, acha isso o maior vantajão e sai rindo, contando pros amigos, se julgando o espertalhão da paróquia. Se tivesse a chance, ele também roubaria os milhões que os políticos roubam”.

Nisso, a garota com o troco chegou. Eu me despedi das funcionárias e vim embora. De alma escovada.

CHEIRO DE PAPEL 

Como um todo, minha memória é um fiasco. Com frequência, meus irmãos comentam comigo eventos que se foram. Lembram-se das coisas com nitidez formidável. Eu nem sequer tenho da maioria delas uma pálida lembrança. A impressão que tenho é a de que vivo num esquisito estado de permanente agora. Não importa se é o passado recente ou se é o passado longínquo. Tenho a sensação de que deleto ambos, ainda que de modo inconsciente. De vez em quando, um lampejo ou outro quase traz alguma concreta lembrança. Quando me lembro das coisas, é tudo muito impreciso, vago, difuso. Não sei precisar a época, lembro-me de fatias, de pequenos instantes. Como um todo, dizimo indiscriminadamente o que houve de bom e o de ruim.

Sempre gostei demais daquela passagem de “No caminho de Swann” em que o narrador diz ter sentido um frêmito ao saborear pedaços de um biscoitinho chamado madalena. A princípio, ele não soube compreender o que causava nele aquele estado inédito. É que o biscoito fizera vibrar uma das notas da memória. No começo, a melodia não se formava. Com paciência, o narrador acaba conseguindo se lembrar de que a madalena e o chá compunham parte do cardápio dele quando ele era criança. A consciência disso desencadeou a lembrança de todo um passado que, de outro modo, poderia ter permanecido enterrado no “edifício imenso da recordação”.

Recentemente, tive uma espécie de experiência proustiana. Não tão grandiosa nem tão abarcadora quanto a dele. Não houve grande mudança em minha vida nem achei a chave que abre o edifício de minhas recordações. Quando muito, abriu-se uma portinhola ou uma fresta. Nada mais. Se digo que a experiência foi proustiana, é porque veio até mim por intermédio dos sentidos. Em meu caso, veio especificamente por intermédio do olfato.

Amigos já me disseram se lembrar do cheiro que tinha a primeira sala de aula que frequentaram. Outros já me disseram se lembrar do cheiro da casa em que moraram na infância. A lembrança preserva tudo; às vezes, de modo oculto. É preciso que um objeto, “a sensação que nos daria esse objeto”, “ensina” Proust, liberte o passado que está em nós.

Desde criança, frequento bancas de revistas. Tenho em casa o acervo que acabei juntando ao longo dos anos. Há alguns dias, ao entrar em uma banca a que nunca tinha ido, senti o cheiro dos papéis, mistura de diferentes publicações produzindo uma gostosa sensação. Assim que entrei, senti forte o cheiro. Um cheiro onipresente, gostoso, encorpado o bastante para me conduzir a um passado saudoso e pleno de gosto agradável. Talvez, o que tornava tão espesso o cheiro fosse o fato de que o recinto era pequeno e havia centenas de revistas e dezenas de jornais. Misturados, contentavam meu olfato. Durante alguns minutos, fingi que observava as publicações, sem manuseá-las. Ia para um canto, depois ia para o outro... A atendente se aproximou e disse que eu podia ficar à vontade para folhear. Agradeci a ela pela gentileza e continuei aspirando o cheiro de papel que flutuava no ambiente. Somente depois de alguns minutos é que comecei a mexer nas publicações.

No fundo, sou o mesmo. O garoto que aguardava ansiosamente a chegada das revistas está no adulto que aguarda ansioso a vinda das publicações e que entrou há dias numa banca de revista. O que mudou, é que o adulto (nem sempre) lida melhor com os pensamentos, impulsos e sentimentos infantis. Em essência, não mudei. O regozijo na banca, quem o sentiu foi o garoto.

PEQUENO ENSAIO FOTOGRÁFICO

A fotografia fez com que eu passasse a exercer com mais capricho o sentido da visão. Com a fotografia, aprendi a reparar tanto em minúcias quanto em vastas paisagens; passei a descobrir meu quarto, minha casa, a cidade. Quanta variedade e fartura pode haver em meio metro quadrado... 

A fotografia me possibilitou vivenciar de modo muito forte crenças que eu vinha mantendo há muito tempo. Pensamentos como o de que a beleza está bem aqui do lado, de que não é preciso ir longe para buscá-la; pensamentos de que a maior das trivialidades pode ser vista de uma forma rica...

Antes da fotografia, minha visão era voltada quase que exclusivamente para o interior. Depois dela, passei a me voltar também para o exterior. Meu interior gostou. Por intermédio da fotografia, ampliei-me. Ainda que tarde, percebi, por exemplo, que por aqui os céus de agosto quase não contêm nuvens. Quando contêm, elas são na maioria das vezes descabeladas.

O que tanto me fascina na fotografia não é nem tanto sua capacidade para imobilizar um instante (embora isso também me fascine), mas o poder que ela tem de silenciar as coisas. Drummond, em referência à poesia, mencionou seu “poder de silêncio”. Pego emprestada a expressão do poeta e a aplico também à fotografia. Ela tem poder de silêncio, fala por intermédio do silêncio. Imagem imóvel, silenciosa. Eloquente. 

Cada instante pode ser valorizado. É preciso saber olhar. Questão, mesmo, de ponto de vista. Noutras palavras, cada instante mereceria uma fotografia. 

A foto ideal seria uma espécie de junção de todas as fotografias de todos os instantes de todas as pessoas. O fotógrafo tem de se contentar com fatias, com pequenas imensidões. Para a foto total, a união das fotos de todos os lugares, exibindo o que há aqui e o que há fora da Terra. Ainda assim, a foto ideal não estaria pronta, pois se há fotografia houve alguém por trás da câmera. E quantos momentos não são registrados porque não há ninguém por perto... Além do mais, seriam necessárias fotos dos fotógrafos tirando fotos.

A foto ideal não perderia um só segundo de ninguém nem de nada. Esse instante dessa hipotética foto não teria um antes nem um depois; não deixaria nada de fora, de modo que tudo quanto há, houve ou haverá estaria registrado. A foto ideal seria o mais abrangente silêncio. Seria ao mesmo tempo engraçada, triste, bela, feia e plena de tantas outras coisas que ainda não foram nomeadas. A foto ideal mostraria o micro e o macro, o lado de dentro e o lado de fora, o em cima e o embaixo, a esquerda e a direita. Exibiria vidas de outros lugares, estrelas, luas, minhocas, canetas, urubus ou neve.

Uma foto vive em estado de agora. Esse estado, numa foto ideal, seria bem maior do que o durar de um clique.

A foto ideal traria terremotos, morte de galáxias e cortes nos dedos. Conteria ônibus, pergaminhos, rituais e computadores. Haveria nela shows de rock, cenas de amor e de tédio, o inusitado e o trivial. Teria de ter desertos e inundações.

Quais seriam as cores dessa foto? Cor de luz ou cor de breu? Mistura dos dois? Seria preto-e-branco ou colorida? Ela se pareceria com o quê? Reconheceríamos nela o ser humano?

Somos limitados. É por isso que a foto, para nós, ideal, é a deste instante. Fotografemos.

Para Nilda Regina
(5 de fevereiro de 2012)


Sempre tive o privilégio de ter tido, desde o primário, excelentes professores. Assim foi até a faculdade. Assim tem sido. Sempre tive fascínio por professores. A inteligência deles me espantava. O encantamento por eles não diminui.

Não digo que foi isso o que tenha me levado a ser um professor. Eu não pensava em lecionar. Foi algo que ocorreu em função das circunstâncias: aos onze anos, comecei a estudar numa escola de inglês. Quando a Doris Coury, a dona da escola, disse que eu ainda daria aulas para ela, não levei a sério (meu pai levou). Aos dezessete, comecei de fato a lecionar na escola.

Para quem até então havia trabalhado numa fábrica de farinha e numa padaria, a perspectiva de começar a dar aulas numa escola de inglês era animadora – em função do melhor salário. Também me animei porque eu teria de ir a Carmo do Paranaíba duas vezes por semana para lecionar. Eu não conhecia a cidade até então.

Joyce teria dito: “Nunca conheci um chato”. Digo que nunca fui a um lugar ruim. Em Carmo do Paranaíba, não foi diferente. Ademais, foi lá que comecei algo que eu desejava desde os treze ou quatorze anos: trabalhar numa estação de rádio. Graças ao Evandro Fontes, que na época era locutor em Carmo, comecei no rádio.

Trabalhar em rádio foi algo com que sonhei. Dar aulas foi algo que aconteceu sem que eu planejasse. Por um bom tempo, exerci as duas atividades. Hoje, apenas leciono, embora, para matar saudade do rádio, gravo mais ou menos semanalmente, o Caiu na Rede, programa musical que apresento em meu blogue.

Tive professores geniais. Uma das quais não me esqueço é a Nilda Regina, que lecionava português no Polivalente, onde estudei da quinta série ao quarto ano do segundo grau (curso técnico em Edificações). Nilda era famosa entre os alunos pela beleza, pelo porte, pela elegância e por ser a esposa do diretor, o Fernando. Não me lembro por quanto tempo ela foi minha professora, mas há duas aulas dela de que nunca me esqueci – sendo que numa delas eu não estava presente...

Acho que foi no primeiro ano do antigo segundo grau (hoje chamado de ensino médio). Não sei se era para um dever de casa da Nilda ou de uma outra pessoa. Do que me lembro, é de ter desenhado, numa cartolina, um triângulo. Dentro dele, esbocei o mapa do Brasil. O título que dei para a patuscada foi Triângulo das Bermudas. Para arrematar, escrevi um ingênuo poema em que eu dizia que se o Brasil estava ruim, a culpa não era de minha geração, mas das que tinham vindo anteriormente.

Tudo não passava de simploriedade e arroubo juvenil. No dia em que o cartaz foi exposto, não fui à aula (não me lembro do motivo da ausência). Posteriormente, o Aldo Fernandes, que na época era meu colega de sala, disse que a Nilda, depois de ler o que eu havia feito, comentou que a geração dela havia, sim, tentado fazer do Brasil um país melhor. Segundo o Aldo, ela chegou a mencionar a juventude dela durante o período militar. Essa é umas das aulas da Nilda de que nunca me esqueci.

A outra aula dela que nunca esqueço (nessa eu estava presente) foi uma em que, no começo do horário, a Nilda afixou no quadro dois cartazes: num deles havia pelo menos o trecho inicial de “Luz do sol”, do Caetano: “Luz do sol / Que a folha traga e traduz / Em verde novo / Em folha, em graça / Em vida, em força, em luz” (não me lembro se havia a letra toda no cartaz).

No outro, havia um esquema em que era mostrado o processo químico da fotossíntese; havia uma explicação de como essa ocorria, com setas que partiam do Sol até chegar à Terra, passando pelas plantas e por tudo o que compõe o ciclo da fotossíntese. A Nilda comentou algo do tipo: os dois cartazes eram dois discursos diferentes que abordavam o mesmo fenômeno.

Desde criança, eu sempre tivera deslumbramento pela versatilidade, por tudo o que é eclético. Depois de adulto, obviamente eu entenderia que, infelizmente, nossa época, tão inexoravelmente dada a especialidades, não nos permite exercer com igual dedicação o ecletismo que possamos ter, mas tal pensamento nunca me abandou. Mesmo hoje, a diversidade de afazeres me atrai.

A Nilda resumiu naqueles dois cartazes o que era meu pensamento, mesmo não sendo eu capaz de, na época, compreendê-lo com exatidão ou verbalizá-lo. Os dois cartazes que ela afixou no quadro eram a junção de arte e ciência, que eram (e, confesso, ainda são) o meu ideal. Enquanto ela ia falando, eu me maravilhava.